18 de setembro de 2025
Silvio Lopes Peres, analista junguiano do Instituto de Psicologia Analítica da Bahia (AJB/IAAP).
Curatorial:
Não normalizemos Gaza! Esse é o clamor de mentes lúcidas e almas generosas diante do contínuo martírio da população palestina. A solução pretendida pelo regime perverso de Benjamin Netanyahu, acumplliciado por Donald Trump, pretenso “imperador do mundo”, seria a expulsão de todos os palestinos da Faixa de Gaza e, mais pretensiosamente, de toda a Cisjordânia, em busca de constituir uma Grande Israel. Não, não se trata de uma medida de sobrevivência do povo judeu e sim da falta de humanidade. O autor do presente ensaio evoca a ideia de “Sumud”, solidariedade moral e social, resiliência construtiva, para suportar as perdas materiais e psíquicas das vítimas palestinas, ancorando-nos num profundo senso ético de protesto.
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“Gaza é a mancha crescente nas nossas consciências”
(Fundo das Nações Unidas para a Infância – Unicef)
O genocídio em curso contra o povo palestino nos humilha, pela crueldade e retaliação desproporcional das autoridades israelenses. Estamos diante de uma gravíssima crise da nossa condição humana.
Se quisermos vivenciar nossa verdadeira humanidade, admitiremos nossa culpa e vergonha, pois, nos omitir significa aviltar-nos e colaborar com a banalização do mal do qual fazemos parte.
Concordamos com o analista junguiano John Sanford, quando afirma: “Sem a influência moderadora da vergonha e do autorrespeito, os seres humanos são capazes de praticar os males mais terríveis” (Destino, amor e êxtase. São Paulo: Paulus, 1999, p. 31).
A culpa coletiva subjetiva é uma fatalidade trágica, porque todos nós estamos muito próximos dos crimes cometidos, mas assumi-la pode salvar a sociedade e nos livrar do ódio coletivo que domina os que se identificam com a ideologia da extrema-direita.
Sentimos que a dominação das consciências pelo orgulho e arrogância tem conduzido ao enfraquecimento da memória dos israelenses, pois tem sido desmedida e injustificada a represália ao ataque sofrido em 7 de outubro de 2023, diante do qual, igualmente, manifestamos nosso repúdio.
Reafirmamos o que aprendemos com um dos fundadores da Psicologia Analítica, Joseph Henderson (1903-2007), quando expressa: “Mudam-se os métodos, através dos tempos, mas o impacto da guerra é eterno e arquetípico” (O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977, p. 108).
Sim, nos solidarizamos com os palestinos por terem criado o conceito “Sumud” que, no entendimento da professora Rima Awada Zahra, professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC/MG), psicóloga e consultora em educação e saúde mental, significa:
“[…] não apenas ser capaz de sobreviver ou ser capaz de recuperar forças para se adaptar ao estresse e às adversidades; implica também manter uma atitude resoluta de desafio contra a opressão e a ocupação. […] “Sumud” é quando a ocupação arranca as nossas oliveiras, e plantamos outras. Quando demolem as nossas casas, construímos novas. Quando nossas escolas fecham, improvisamos outras. Quando obscurecem e pervertem a nossa história, oferecemos os nossos testemunhos, as nossas memórias e as nossas evidências. Trata-se de estabelecer laços de solidariedade através de ações coletivas. Escolher a “Sumud” não é fácil nem indolor, e não significa de forma alguma ausência de emoções negativas diante da perda. Pelo contrário, a “Sumud” nos permite manter o otimismo, a solidariedade moral e social, ao mesmo tempo que continuamos a enfrentar a realidade sinistra das estruturas opressivas. “Sumud” é perseverar e amar, apesar de todas as adversidades […] desfazendo um tanto da angústia e mostrando que a humanidade não é uma essência dada e recebida, mas sim uma construção política diária.” (Gaza no coração: História, resistência e solidariedade na Palestina. (Org. Rafael D. Oliveira). São Paulo: Elefante, 2024, p. 175).
Pelas crianças palestinas! Pelas mulheres palestinas. Pelo povo palestino! Levantamos nossa voz contra o genocídio! “Sumud” a todas, todos e todes!
* O ensaio foi publicado originalmente no Instagram da Associação Junguiana do Brasil – AJB.
Foto de Mohamed Jamil Latrach gratuita e gentilmente cedida via Unsplash

