Rosa Brizola Felizardo, analista do IJRS – Instituto Junguiano do Rio Grande do Sul e Presidente da Associação Junguiana do Brasil – AJB.
Curatorial
Este ano comemoramos os 150 anos de nascimento de C. G. Jung (1875-2025), fundador da Psicologia Analítica. Para honrar a vida desse notável personagem da ciência e da cultura, a Associação Junguiana do Brasil – AJB concebeu um significativo encontro entre a comunidade junguiana e pensadores que se interessam pela Psicologia Analítica: o 28º Congresso da AJB, realizado nos dis 20 e 21 de outubro de 2025, no Teatro Bravos (Museu Tomie Ohtake) . O título escolhido para o evento foi “Origens e Horizontes”. Reproduzimos, a seguir, o texto da fala de abertura da Presidente da Instituição, Rosa Brizola, dirigida aos 580 participantes. Para além do aspecto formal do ato, a fala de abertura é um documento expressivo do compromisso da Psicologia Analítica com a sociedade brasileira e, extensivamente, com o mundo, implicando-se com os temas relevantes da contemporaneidade.
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Bom dia a todas e todos os que estão aqui conosco, presencialmente e de modo remoto, para este encontro que celebra os 150 anos do nascimento de Carl Gustav Jung. Este é um congresso oferecido a vocês, mas em especial a ele.
Em nome da AJB, do Instituto C.G Jung de Minas Gerais, do Instituto Junguiano do Rio Grande do Sul e Instituto Junguiano de São Paulo, declaro aberto o 28º Congresso da AJB – “Origens e horizontes: Jung 150 anos depois”.
Uma efeméride desta grandeza nos pediu coragem, compromisso e criatividade suficientes para, juntos, movermos estruturas, sistemas, modelos, padrões, buscando fazer jus às construções e provocações do mestre da psicologia analítica. O que também inclui, dar lugar a todas e todos que com ele construíram e vêm construindo esta tão complexa e fascinante psicologia.
Uma comemoração não pode, por óbvio, repetir um dia ordinário do nosso cotidiano. É preciso sacudir os tapetes, que sempre podem guardar sujeiras embaixo, realizar nova arrumação dos móveis da sala, que sempre podem arranhar o piso, lavar as taças e viver o risco de que alguma delas se quebre. Como se não bastasse, é crucial definir a data, os horários e o cardápio. Compor a lista dos convidados. Que desafio!
Todos poderão vir? Quem será incluído? Quem ficará para uma próxima ou até mesmo nunca fará parte?
Já de antemão sabemos ser impossível agradar todos os convidados para este encontro. Reza a lenda que cerca de 20% não irão comparecer pelos mais variados motivos. E mais, nestes nossos tempos, o que dizer dos intolerantes? Claro, ao glúten, lactose, açúcar… Ou ainda, como respeitar os justos posicionamentos de veganos e vegetarianos?
Só um único caminho nos parece poder dar conta de tamanha complexidade. É o caminho da alegria, de estar juntos, de reunir e sustentar diferenças, de festejar com (comemorar). Para isso é necessário deixar o lugar da individualidade, “sair do palco” para se lançar em direção ao coração do outro, confluir e aceitar fazer parte de uma coletividade que me dá pertencimento e o desejo de ritualizar uma data máxima.
Porque comemorar o nascimento de alguém é uma reafirmação do amor!
Vencidas as resistências e o medo de que o deus da alegria não seja invocado a tempo, vamos ao aniversariante.
Com quem Jung iria conversar na atualidade? Para onde deslocaria suas inquietações?
Sabemos que certamente ele estaria em movimento, como podemos perceber ao longo de sua vida e obra, na qual ele sempre nos alertou dos perigos da estagnação e da inconsciência. Sabemos que consciência se faz em movimento. Honremos o pulsar da regressão e da progressão, a sístole e diástole que mantêm a vida!
Para esta nossa festa, damos um passo atrás, abrimos espaço, permitimos vazios, mudando a perspectiva. Nos recolhemos em reflexão, para com isto poder conectar aquilo que já temos com o movimento de abrir a escuta para as pensadoras e os pensadores da atualidade que são as vozes de um tempo. Do nosso tempo, aquele que nos coube viver e construir. E mais, no exato lugar em que nos coube viver.
Jung começou assim, mergulhando em suas origens, dialogando com sua contemporaneidade e antevendo horizontes, enquanto espectador e ator. “Origens e horizontes: Jung 150 anos depois”.
Partindo dessa imagem como metáfora e como desafio, diante de um mundo que produz beleza incessantemente, na mesma medida em que arde em horrores, o que temos nós, da Associação Junguiana do Brasil, a dizer?
Jamais teremos respostas definitivas, sabemos disso, mas acreditamos que muito pode ser dito. Outro dia, no espetáculo “O céu da língua” de G. Duvivier, ouvi a frase “Metáfora é quando uma palavra nasce da costela de outra palavra.” Esse deve ser o imaginar da nossa festa junguiana, um nascedouro de palavras/imagens. E para isso temos convidadas e convidados mais do que especiais.
Não teremos todas as vozes nem todas as palavras, mas escolhemos pessoas e temas – ou por eles fomos escolhidos – que serão capazes, com sua força e sensibilidade, de nos desacomodar, de nos colocar em movimento de reimaginar a vida, imaginando assim os caminhos de uma psicologia junguiana no Brasil. Todos os que virão nos reafirmam que o racismo epistêmico só nos detém, que sozinhos nada podemos. Que a criatividade e a transgressão andam juntas, resultando em ações e atitudes comprometidas e intencionais de ampliar, incluir e dialogar, tecendo redes capazes de cuidar da vida em sua diversidade.
Um congresso de psicologia pode almejar estes objetivos? Cabem nele estas ousadias?
Respondemos que sim.
Trazemos aqui as palavras do OPA – Observatório da Psicologia Analítica da AJB, que é um dispositivo da associação que se propõe a oferecer ensaios sobre questões contemporâneas e suas dimensões socioculturais, políticas e econômicas, que todos sabemos, emergem no espaço analítico, afetando igualmente analistas, pacientes, alunos e cidadãos que todos somos:
“Um congresso profissional é um espaço para encontro entre diferentes saberes e experiências, vindos de diversas regiões e trajetórias. É um ambiente de trocas intensas, onde o debate promove o aprofundamento do conhecimento e o surgimento de novas ideias. Um momento de encontro entre a comunidade junguiana e pessoas que se interessam pela psicologia analítica – este especialmente, para honrar a vida desse notável personagem da ciência e da cultura. Nele se reunirão pessoas que trocam palavras, gestos e escutas significativas. Participar de um congresso é abrir-se ao diálogo com o coletivo, é permitir-se revisar perspectivas, ampliar horizontes e retornar à própria prática com mais clareza, atenção e entusiasmo.”
E quem estará conosco neste Congresso/Celebração? Logo mais, receberemos aqui representações dos principais grupos de analistas junguianas e junguianos: do Brasil – Associação Junguiana do Brasil (AJB) e Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica (SBPA); da América Latina – Comitê Latino-Americano de Psicologia Analítica (CLAPA); da Suíça – Associação Internacional de Psicologia Analítica (IAAP). Para que, juntos pela primeira vez em um congresso brasileiro, possamos nos ouvir, dialogar e propor a construção coletiva de rumos e enfrentamento dos desafios da psicologia analítica, 150 anos depois do nascimento de Carl Gustav Jung.
Já a partir da tarde de hoje, estarão no centro de nossas atenções pensadoras e pensadores brasileiros que nos contarão de suas experiências nas grandes temáticas que irão abordar, não só de um lugar de quem reflete e aprofunda, mas, sobretudo, de quem age e transforma.
Começando por: Érika Hilton – ela que nos fala como quem acende um fogo antigo, trazendo palavras entre lâmina e flor, convocando presenças. Na sua mesa, “Corpos em travessia: gênero, alma e imaginação política.” A psicologia analítica se alinha à defesa radical da vida e da liberdade, reconhecendo o papel da alteridade e da diversidade sexual e de gênero como forças transformadoras da cultura e da psique.
A seguir, Marco Lucchesi, ele que sabe que a poesia é também clínica e que trocar cartas com Nise é conversar com o coração do mundo. “Viagem a Florença: cartas de Nise da Silveira a Marco Lucchesi.” As excepcionais cartas de Nise da Silveira a Marco Lucchesi estão reunidas no livro “Viagem a Florença”. Iremos nos emocionar conhecendo essa obra que, após muitos anos esgotada, será lançada em uma nova edição neste congresso.
Segue, Márcia Tiburi, que nos traz “Antígonas” que deixam de ser mito antigo e se tornam espelho do agora. E cuidar do que ainda pode ser justo é ternura e subversão.
“Antígonas de hoje: desobediência, subversão e ética do cuidado.” Essa mesa irá nos propor uma reflexão sobre a clínica, a política e a escuta que acolhe a desobediência como gesto ético. A psicologia analítica é desafiada a reposicionar-se frente às urgências do feminino em sua multiplicidade e potência subversiva.
Chegamos a Eliane Brum que, escrevendo como quem se deita sobre a terra para ouvir seu coração, nas margens que o centro esqueceu, nos leva ao encontro do centro da vida: “Beiradas da alma: escutando os povos da floresta, do centro às margens.” Mesa que propõe a escuta de uma psique profunda e do sul. A vida beiradeira e a sabedoria dos povos da floresta vêm revelar uma alma que resiste ao apagamento e à centralidade de uma psicologia do norte. A psicologia analítica é convidada a desfazer seu colonialismo simbólico e a construir uma ética da escuta do invisível, do inominável, do que vive fora do centro.
Receberemos, ainda, Daniel Munduruku; com a serenidade dos rios antigos, ele nos diz que educar é memória e presença, onde aprender é reconhecer-se: “Horizontes possíveis: raízes do presente.” Daniel Munduruku nos convida a pensar a educação, a identidade e a ancestralidade como fundamentos de uma psicologia enraizada na terra e nos povos originários. O encontro com a tradição indígena interpela a psicologia analítica a sonhar junto, a rever seu pacto com a razão ocidental e a escutar os mitos vivos que atravessam o território brasileiro.
E, fechando os dois dias de celebração, Fabiana Cozza, ela que, em cada canto, nos devolve ao samba como rito. Onde palavra, gesto e respiração se tornam oferendas. Alma, tempo e som como tambor e oração: “Samba, corpo e afrobrasilidades.” Aqui, o samba se apresenta como expressão viva da cultura e da psique. O corpo, o ritmo e a memória ancestral se entrelaçam como caminhos de individuação coletiva pela via da alegria e do encontro. A psicologia analítica é convidada a se reconhecer na dança das brasilidades.
Encerrando esta abertura, queremos dizer a Jung que buscamos reunir para este congresso vozes capazes de ser ao mesmo tempo escuta e invenção, celebrando alma e território na dimensão do rito que transforma. Onde a palavra ouse, a justiça desperte, o tambor chame e o pensamento se rebele em festa.
Obrigada!

