2 de outubro de 2025

Roque Tadeu Gui, analista do Instituto Junguiano de Brasília (IJBsB), filiado à Associação Junguiana do Brasil – AJB e à International Association for Analytical Psychology (IAAP).

Curatorial

Nos últimos dias, diversas cidades brasileiras foram palco de manifestações populares contra a chamada PEC da Blindagem e a proposta de anistia aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro. Em Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e capitais de todas as regiões, milhares de pessoas ocuparam ruas e praças com cartazes, bandeiras e palavras de ordem em defesa da democracia. Os manifestantes denunciaram a tentativa de enfraquecer as instituições e de garantir impunidade a quem atacou os três Poderes. Movimentos sociais, sindicatos, entidades estudantis e coletivos de direitos humanos se uniram na convocação, reforçando que a memória dos ataques não pode ser apagada. Houve também apresentações culturais e intervenções artísticas que destacaram a importância da resistência democrática. Em clima de firmeza, mas majoritariamente pacífico, os atos reafirmaram a exigência de justiça e a recusa a qualquer forma de retrocesso institucional. Em especial, na manifestação de Copacabana, Rio de Janeiro, destacaram-se as figuras dos velhos mestres da música popular brasileira, objeto do presente ensaio.

__________________________________________

Jung usou o termo metanoia – em grego, μετάνοια –, que significa mudança de ideia, de mentalidade, para se referir a uma profunda transformação da consciência que poderia ocorrer em algum momento da vida, geralmente em sua segunda metade.

Os junguianos apreciam o conceito e o utilizam com frequência. Talvez porque a ideia de expansão da consciência ao longo do ciclo vital nos seduza: uma ampliação da percepção de nós mesmos e de nossa presença no mundo. Junto com ela, a crença — um tanto idealizada — de que a idade traria também um aumento da sabedoria de vida. Reconfortante, não?

Contudo, sabemos que nem sempre é assim. Ampliação da consciência, o que quer que isso signifique, não é resultado de uma simples “virada de bife” na frigideira da vida, em certo momento da trajetória. Em alguns casos, pode até se manifestar como uma súbita conversão de valores pessoais mas, em geral, está ligada à vida que se levou antes da “virada” — ou às diversas “viradas” que ocorrem ao longo da existência.

Chegamos, então, àquele domingo.

Uma manhã ensolarada de primavera na capital do País. Sigo para a Esplanada em resposta à convocação cívica contra a PEC da Blindagem, apelidada de PEC da Bandidagem, proposta pela Câmara dos Deputados. E, no pacote, um protesto contra a imunidade daqueles que atentaram contra a Democracia nos tempos recentes, ressoando o bordão: “Sem Anistia!”.

Cumprida a missão, sob o sol escaldante de Brasília — mas com a satisfação cidadã e o sentimento de ter feito minha pequena parte — vou para o almoço. Depois, em casa, busco notícias sobre as manifestações em outras cidades brasileiras.

São Paulo, com mais de 42 mil pessoas — lá, diferentemente de Brasília, sob chuva — se destaca pela enorme bandeira brasileira desfraldada diante do Museu de Arte de São Paulo, o MASP, na Avenida Paulista. Uma peça de arte cívica coletiva. As forças democráticas reconquistam um símbolo nacional.

E, depois, o Rio de Janeiro. Um palanque na Praia de Copacabana. Nele, figuras emblemáticas da música brasileira: Caetano Veloso (83), Gilberto Gil (83), Paulinho da Viola (82), Chico Buarque (81), Ivan Lins (80), Djavan (76), Lenine (66), Frejat (63), entre outros. A escadinha etária é proposital: são decanos da cultura popular. Todos velhos. Vai lá, Lenine e Frejat ainda “garotos” — mas já a caminho da idade provecta.

Um show quase improvisado. Urgia sua realização, diante da iminência de uma votação que consagraria a impunidade política. A convocatória veio de um senex/puer – , irreverente e iconoclasta: Caetano Veloso. O mesmo que, em 1968, compôs com Gil Divino, Maravilhoso: “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”. O artista em coerência com sua arte.

O ato cívico, mais que espetáculo, foi cheio de improvisos — como a própria vida! Nada de som perfeitamente modulado por produção esmerada, típica dos grandes shows desses artistas. Figurinos improvisados: Caetano com uma camisa amarela na qual caberiam dois dos jovens Caetanos dos anos 1960; Gil, de verde, compondo com ele o verde-amarelo da nacionalidade. A performance no palco: passos miúdos, típicos da velhice; cadeiras à disposição, porque os velhos cansam de ficar em pé e preferem andar, ainda que titubeantes; corpos levemente encurvados, expressões de cansaço. Mais confortável teria sido passar a tarde em casa.

As canções de Chico, onipresentes nos protestos políticos há mais de meio século, são evocadas por Maria Gadú (38), uma talentosa intérprete de nova geração. As canções são mal acompanhadas pelo próprio autor. São tantas as criações de Chico que podemos compreender a dificuldade de tê-las todas em mente. Dadas as precárias circunstâncias, as vozes desafinam. Não passariam pelo crivo de um júri do The Voice! Tudo improvisado — e, justamente por isso, profundamente significativo. Os decanos abriram mão de suas personas artísticas glamorosas para se colocarem a serviço de algo que os ultrapassa: a luta pela democracia. Extraordinário! Lá estavam Geras , o velho alquebrado, e o Senex, expressão da sabedoria advinda da vida bem vivida.

Inevitável o passar do tempo. Cronos, o impiedoso, degrada o corpo e nos lança na nostalgia pela exuberância do Puer, o eterno jovem. Temos dificuldade em aceitar essa realidade. Preferimos as nuances luminosas do velho sábio. Mas, naquele domingo, entre passos miúdos, vozes falhas, costas curvadas e esquecimentos de Geras, vimos fulgurar a alma sábia de mestres. Corpos frágeis transmutados em cultura.

REFERÊNCIAS:

1) A figura do velho sábio (Senex) é mencionada por Jung em várias de suas obras, considerado como um dos arquétipos representativo da sabedoria acumulada pela experiência, às vezes expressão do Self. Se por um lado, os gregos temiam a decadência do corpo, personificada por Geras, por outro, respeitavam a autoridade dos anciãos, quando a idade vinha acompanhada de Sophia (sabedoria). (https://pt.wikipedia.org/wiki/Velho_sábio)

2) A figura do puer, também referida por Jung, foi estudada profundamente por Marie-Louise von Franz e por James Hillman (O livro do puer. Ensaios sobre o arquétipo do puer aeternus. Tradução de Gustavo Barcellos. São Paulo: Paulus, 1998).

3) Na mitologia grega Geras (em grego Γῆρας) é o daemon que personificava a velhice e que era tido como parceiro e prelúdio inevitável de Tânato, a morte. Seu oposto é Hebe, a juventude. Seu equivalente na mitologia romana era Senectus. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Geras). Segundo a Teogonia, de Hesíodo, é filho da deusa pimordial Nyx (Noite). Representa a velhice inevitável, com sua fragilidade, decadência fisica e aproximação da morte. É mostrado como  um velho enrugado, curvado e frágil, contrastando com heróis jovens e vigorosos. Sua presença lembra aos mortais que a força e a juventude são passageiras.