18 de setembro de 2025
ReNato Bittencourt Gomes*, psicólogo (CRP 08/26.103), especialista em Psicologia Analítica, mestre em Estudos Literários, contista – autor de Mecânica dos fluídos, Liturgia do sangue e Inventário e descobrimentos: Os tecidos do corpo.
Curatorial
Em 30 de agosto passado, faleceu Luis Fernando Verissimo (1936-2025). Reconhecido sobretudo como cronista e humorista de nossa contemporaneidade, o escritor também se destacou como cartunista, tradutor, roteirista, dramaturgo, romancista, publicitário e revisor de jornal. Homem de múltiplos talentos, acompanhado sempre pelas musas da criação, estendeu sua arte também à música, dedicando-se ao saxofone e chegando a atuar como músico. Um verdadeiro gênio da nacionalidade! Renato Bittencourt Gomes, nosso ensaísta, oferece um depoimento sensível e intimista sobre seu encontro com o escritor — uma homenagem que é, ao mesmo tempo, testemunho dos efeitos transformadores do contato com a notável obra dos Verissimo: Luis Fernando e seu pai, Erico Verissimo (1905-1975).
__________________________________
No derradeiro sábado daquele agosto, logo no início da manhã, veio do Sul a informação do passamento de Luís Fernando Verissimo, aos 88 anos, encerrando três semanas de UTI.
Começou pelos sites de notícias e sem demora tomou as redes sociais de jornalistas, escritores, artistas e pessoas comuns que (e isso já não é comum…) integram a parcela efetivamente letrada e leitora desta imensa nação.
Frente à perda, era preciso dizer da admiração e do afeto.
Sem dúvida legítimas, essa tietagem e badalação vieram pelo avesso do homenageado – homem pacato, discreto, tímido até, senhor de uma fala tranquila que parecia sempre estar pedindo licença para ferir o silêncio.
Com seu jeito conhecidamente quieto, Luis Fernando foi, apesar de nascido e residente no Rio Grande do Sul, um antigaúcho, reverso do mítico gaúcho atrevido alardeado por muitos sul-rio-grandenses (não todos…) que exaltam o chamado gaúcho de faca na bota, tipo expansivo, sanguíneo, pura sensação.
Literariamente, a expressão máxima de tal figuração arquetípica está em um certo capitão Rodrigo, personagem criado pelo romancista Erico Verissimo (1905-1975), pai de Luís Fernando.
No imaginário coletivo do Brasil, o capitão aparece com as feições de Tarcísio Meira e Thiago Lacerda, que o encarnaram em minisséries da nossa teledramaturgia.
Mulherengo, farrista e pródigo, esse personagem é muito distante do seu criador: assim como seu filho Luís Fernando, Erico também foi um cidadão pacato e discreto, e igualmente um antigaúcho, sem bombachas nem gineteadas.
Talvez um referencial para a elaboração do capitão Rodrigo tenha sido seu Sebastião Verissimo, pai de Erico – que, em Solo de clarineta, seu livro de memórias, conta desse pai boêmio, mais atento ao vínculo com os companheiros de noitada que aos cuidados com esposa e filhos.
Erico foi o oposto desse pai, e Luis Fernando, o oposto desse avô. Os Verissimo escritores reservaram sua sombra, verve e veneno para os personagens, para sua criação literária. Erico, no romance (nos legou o monumental O tempo e o vento); Luis Fernando, na crônica.
Nesse gênero, o neto de seu Sebastião alcançou uma popularidade que porventura superou a de Erico – que, por muitos anos, compôs juntamente com Jorge Amado a dobradinha dos únicos escritores brasileiros a viver exclusivamente de direitos autorais.
Escrevendo desde sua Porto Alegre para publicar em jornais de grande circulação, acompanhado por leitores de todo o país, Luís Fernando se espalhava nesses textos curtos em que rindo castigava os costumes: fazia humor, fazia rir, e desse modo criticava nossas mazelas, por meio da ironia. Com ele, rimos de nossa sombra coletiva.
Na despretensão da crônica, ele criou seu mais festejado personagem, o analista de Bagé, com o qual ironizou mitologemas do gauchismo e da psicoterapia ao inserir maneirismos dos usos e costumes de um Rio Grande do Sul rústico (e, por extensão, de um Brasil arcaico) nos manejos de uma profissão que pressupõe um mínimo de refinamento. Universal falando da aldeia, em um pastiche do linguajar campeiro, Luís Fernando narra as histórias desse terapeuta que, muito embora lance mão de técnicas inusitadas, diz ser psicanalista ortodoxo: “Pues, sou freudiano de carregar bandeirinha. Mas não desprezo os demás. No meu consultório tenho uma guampa esculpida com as caras de Adler e Jung. A Dona Melanie Klein também, era china de se apresentar pra mãe. Coisa mui especial. Já esse tal de Reich, nem pra catá bosta. Reich, pra mim, é prenúncio de cuspida.”
Todavia, quando vi Luís Fernando Verissimo diante de mim não lhe falei do analista. Foi na 10.ª Bienal Internacional do Livro (Rio de Janeiro, 2001). Aguardava se formar uma mesa redonda sentado na plateia e percebi que por ali começou uma movimentação: Luis Fernando vinha para a mesma plateia com Lúcia Helena, sua esposa, e já iam se acomodando quando algumas pessoas se aproximaram para tietar…
Esperei o colóquio acabar, deixei que se dispersasse o breve tumulto, vi dona Lúcia se afastar (depois soube que foi buscar água mineral) e então cheguei ao lado daquele senhor sentado, calvo e gordinho, de óculos, olhando o chão, quieto como um coroinha. Abordei buscando evidenciar conhecimento da matéria:
– Tá aqui o neto do seu Sebastião…
Levantando os olhos, em tom suave ele me disse:
– Tá certo…
Estendi a minha mão dizendo da alegria de poder apertar a sua mão, e logo acrescentei que
– Vou dizer agora o que o senhor já escutou muitas vezes: gosto de ler porque quando era menino tive a oportunidade de ler Erico Verissimo.
– Mas é sempre bom ouvir…
Foi desse modo que contei da minha admiração por Erico, por sua obra com a qual convivo desde sempre – a ponto de ela ter adentrado em mim para compor minha formação como leitor e minha maneira de ser como indivíduo neste mundo. Vivendo meus primeiros 13 anos na minha cidadinha natal, foi Erico que me trouxe os primeiros vislumbres do grande mundo, e de como é a vida.
Assim, quando Luís Fernando faleceu, no fim daquele agosto, foi mais que uma notícia de jornal: era como se me contassem da morte de alguém da família, um parente que vi apenas uma ou duas vezes, mas com quem estranhamente sinto algum vínculo e identidade.
Naquela manhã, fiquei sabendo que discretamente se foi aquele homem quieto que tanto nos disse, e que nos mostrou como sempre é possível rir de nós mesmos, nossas pedras de tropeço, nossa sombra individual e coletiva.
E-mail do autor: bittencourt@gmail.com
Crédito da Imagem: Estadão – Conteúdo

