5 de agosto de 2025

Silvio Lopes Peres, analista do Instituto de Psicologia Analítica da Bahia (IPABAHIA), vinculado à Associação Junguiana do Brasil – AJB e à International Association for Analytical Psychology (IAAP) em 27/07/2025.

Curatorial:

O Senado brasileiro aprovou na quarta-feira, 21 de julho de 2025, o Projeto de Lei 2159/2021, já apelidado de “PL da Devastação”, que flexibiliza as regras de licenciamento ambiental no Brasil.

O texto permite que empreendimentos obtenham licenças de forma automática, apenas com base na autodeclaração do empreendedor, sem necessidade de análises técnicas prévias. A única exceção é para casos classificados como de “alto risco ambiental”. Especialistas apontam que o PL compromete a prevenção de danos ambientais e enfraquece a capacidade de fiscalização dos órgãos competentes (https://reporterbrasil.org.br/…/pl-da-devastacao…/). A preocupação com o ambiente e o clima cresce a cada dia, em face das catástrofes que presenciamos continuadamente. O planeta sofre e com ele todos sofremos. A ignorância do impacto humano sobre a natureza não pode mais ser ignorado, ainda que sob a justificativa econômica da simplificação de processos licenciatórios que são, por definição, a salvaguarda de um relacionamento harmonioso e não violento com a natureza. No ensaio que segue, o analista Silvio Lopes Peres, evoca a necessidade do exercício das “virtudes ambientais” – Sabedoria, Humildade e Esperança – para enfrentar as raízes das mudanças climáticas, reposicionando o lugar civilizatório dos seres humanos na natureza.

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É urgente a mitigação do aquecimento global e as consequências que estão diante de nossos olhos e que sofremos na pele.

A aprovação da lei da flexibilização do licenciamento ambiental (PL 2059/2021), não por acaso apelidado “PL da Devastação”, agrava o caos climático que o País está procurando dirimir e intensifica o sofrimento psíquico de todos nós.

Ainda é possível discernir o perigo de extinção da nossa espécie, ou a nossa consciência não sabe mais se orientar pela natureza porque nos afastamos das bases da própria natureza? Chegamos a um nível irreversível de prepotência, como “dominadores da natureza”, que já não somos mais capazes de nos arrepender de nossa iniquidade?

Assim, C. G. Jung observa nossa condição: “O homem ocidental não necessita da superioridade sobre a natureza, tanto dentro como fora, pois dispõe de ambas as coisas de maneira perfeita e quase diabólica. O que ele, porém, não tem é o reconhecimento consciente de sua própria inferioridade em relação à natureza, tanto à sua volta quanto dentro de si. O que deveria aprender é que não é como ele quer que ele pode. Se não estiver consciente disto, destruirá a própria natureza. Desconhece sua própria alma que se rebela contra ele de maneira suicida” (JUNG, 1935/1988, OC XI, Psicologia e Religião Oriental, § 870).

Neste sentido, cabe-nos recuperar a reputação da nossa própria humanidade, praticarmos aquilo que cientistas ambientais têm chamado de “virtudes ambientais”.

Timothy Leduc, antropólogo canadense, incita a nos reconciliarmos com a “Irmã Sabedoria”, na tarefa de cuidado com a Terra. Inspirado em “Hagia Sofia”, do monge cisterciense Thomas Merton (1915-1968), lembra: “Há em todas as coisas visíveis uma invisível fecundidade, uma luz suave, uma humildade inominada, uma totalidade oculta. Esta misteriosa unidade e integridade é Sabedoria, a Mãe de tudo” (Thomas Merton – https://merton.org.br/hagia-sophia.html).

Segundo a pesquisadora indiana Shelia Sen Jasanoff, a virtude que comprova nossa humanidade é “Humildade”. Para ela: “Políticas baseadas na humildade podem corrigir a desigualdade antes de descobrir como os pobres são prejudicados pelas mudanças climáticas; valorizar os gases de efeito estufa de forma diferente dependendo da natureza das atividades que os geram; e descobrir as fontes de vulnerabilidade em comunidades pesqueiras antes de instalar caros sistemas de detecção de tsunamis” (Sheila Jasanoff – https://sheilajasanoff.org/).

Conforme o professor escocês Alastair McIntosh, somos humanos quando praticamos “Esperança”. “Se quisermos enfrentar os profundos impulsionadores do consumismo e, assim, enfrentar as raízes das mudanças climáticas”, escreve, “precisamos chamar de volta a alma. Isso significa deixar de lado as ilusões de mero otimismo sobre o futuro e a fé cega em soluções técnicas, mas, paradoxalmente, aprofundar nossa capacidade de esperança” (Alastair – https://www.alastairmcintosh.com/).

Onde vamos parar se permanecermos negacionistas, arrogantes e consumistas quanto ao nosso relacionamento com a Terra e conosco mesmos?

Como é grande o perigo da contaminação psíquica a que estamos sujeitando a natureza e a nossa sociedade, recordemos de Jung, mais uma vez: “O que a ciência descobriu uma vez não pode ser desfeito. O progresso da verdade não pode e nem deve ser detido. Mas o mesmo impulso pela verdade que deu origem à ciência deve também reconhecer as consequências que o progresso traz. A ciência deve também reconhecer as catástrofes psíquicas, ainda imprevisíveis, que o progresso trouxe consigo. Nas mãos do homem praticamente infantil de hoje foram colocados instrumentos de destruição que exigem uma responsabilidade ilimitada ou um medo quase doentio para impedir o abuso muito fácil do poder. O mais perigoso são as aglomerações das massas, manipuladas por algumas poucas cabeças. Já tomam forma os imensos blocos continentais que, por simples desejo de paz ou de segurança, preparam as catástrofes futuras. Quanto maior a massa voltada para uma mesma direção, mais violento e calamitoso é seu movimento!” (JUNG, 1946/2000, OC XVIII/II, A Vida Simbólica, § 1367).

Não à lei de flexibilização de licenciamento ambiental, “PL da Devastação”! Sim, às “virtudes ambientais”!

Foto: Vinícius Mendonça – IBAMA