Associação Junguiana do Brasil

Histórico

A Associação Junguiana do Brasil-AJB é uma entidade ligada ao movimento de disseminação das idéias de Carl Gustav Jung, no Brasil. O minucioso estudo da alma humana desenvolvido por esse psiquiatra suiço, conhecido como Psicologia Analítica ou Psicologia Junguiana, foi primeiramente acolhido em nosso país pela psiquiatra alagoana Nise da Silveira, na Cidade do Rio de Janeiro.

Posteriormente, o médico húngaro, Petho Sandor, introduziu o pensamento de Jung na comunidade acadêmica, período que antecede a chegada de Leon Bonaventure à São Paulo, com quem os primeiros analistas brasileiros filiados à IAAP iniciaram sua análise didática.

Uma cuidadosa programação cultural, ao longo dos anos, contribuiu para a adesão de novos profissionais a essa linha de pensamento, entre elas a exposição comemorativa do centenário de nascimento de Jung, em 1975.

Assim, dissemina-se o estudo da Psicologia Analítica em nosso país, cultivado em terreno fértil e marcado por diferenças e singularidades, até que a 11 de novembro de 1991, sete colegas, membros da International Association for Analytical Psychology-IAAP – Carlos Alberto Salles, Elisabeth Zimmermann, Glauco Ulson, Paula Boechat, Priscila Caviglia, Walter Boechat e Candido Vallada – fundam a AJB.

Referendada por Luigi Zoja e Verena Kast, com a formação da primeira turma de analistas – Ângela Nacacio, Áurea Torres, Áurea Roitman, Dulce Helena Rizzardo Briza, Dulcinéia Monteiro, Gustavo Barcellos, Maria de Lourdes Bairão Sanchez e Zilda de Paula Machado – a instituição passa a ser filiada à IAAP durante o Congresso Internacional de 1995 em Zurique, coincidentemente a cidade onde Jung construiu todo seu trabalho.

Em 1997 é aceita como associação plena, estando desde então autorizada a dar continuidade à formação de analistas junguianos reconhecidos pela IAAP. Atualmente, coordena os diversos institutos de formação de analistas regionais (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Campinas, Curitiba, Porto Alegre e Salvador), zelando pelo controle de qualidade e a harmonização e padronização dessas entidades, sem restringir-lhes a autonomia indispensável às suas especificidades.


Ampliação dos Arquivos Históricos


Histórico dos congressos realizados pela AJB

I evento da AJB – maio, 1993 – “Jung, seu mito em nosso tempo” – Visconde de Mauá, RJ(clique aqui para visualizar o folder)

II evento da AJB – agosto, 1994 – “Jung, a natureza e o feminino” – Parque Nacional do Caraça, MG (clique aqui para visualizar o folder)

III evento da AJB – novembro, 1995 – “Psicopatologia arquetípica” – Caxambu, MG

IV Simpósio da AJB – outubro, 1996 – “O masculino em questão” – Mangaratiba, RJ

V Simpósio da AJB – setembro, 1997 – Belo Horizonte (clique aqui para visualizar o folder)

VI Simpósio da AJB – novembro, 1998 – “Psicologia Analítica e Educação” – São Paulo, SP

VII Simpósio da AJB – outubro, 1999 – "O Futuro da Psicoterapia" – Nova Friburgo, RJ (clique aqui para visualizar o folder)

VIII Simpósio da AJB – setembro, 2000 – “Mitologias” – Belo Horizonte, MG (clique aqui para visualizar o folder)

IX Simpósio da AJB – setembro, 2001 – “Eficiência e/ou Transformação” – Águas de Lindóia, SP (clique aqui para visualizar o folder)

X Simpósio da AJB – setembro, 2002 – “Espiritualidade e individuação no cenário contemporâneo” – Itu, SP

XI Simpósio da AJB – outubro, 2003 – “Civilização em Transição” - Mangaratiba, RJ (clique aqui para visualizar o folder)

XII Simpósio da AJB – setembro, 2004 – “Sexualidade e Individuação” – Belo Horizonte, MG (clique aqui para visualizar o folder)

XIII Simpósio da AJB – novembro, 2005 – “A psique é o eixo do mundo” – Canela, RS (clique aqui para visualizar o folder)

XIV Congresso da AJB – novembro, 2006 – “Mundus imaginalis, arte, ciência e espiritualidade” - São Pedro, SP (clique aqui para visualizar o folder)

XV Congresso da AJB – setembro, 2007 – “Amor” – Atibaia, SP

XVI Congresso da AJB – setembro, 2008 – "Gaia, individuação e sociedade" – Rio de Janeiro, RJ (clique aqui para visualizar o folder)

XVII Congresso da AJB – outubro, 2009 – "Arte e Análise – o simbolismo nas artes visuais" - Belo Horizonte, MG (clique aqui para visualizar o folder)

XVIII Congresso da AJB - outubro, 2010 - "Criação" - Curitiba-PR (clique aqui para visualizar o folder)

XIX Congresso da AJB - setembro, 2011 - "O Lado Mal-dito de Jung" - Gramado, RS (clique aqui para visualizar o folder)

XX Congresso da AJB - junho, 2012 - "Soma, Psique, Individuação" - São Pedro, SP (clique aqui para visualizar o folder)

XXI Congresso da AJB – outubro, 2013 – “Símbolos de Transformação: perspectivas para um mundo em crise” – São Paulo, SP (clique aqui para visualizar o folder)

XXII Congresso da AJB – novembro, 2014 – “Alma Brasileira: Luzes e Sombra” – Búzios, RJ (clique aqui para visualizar o folder)

VII Congresso Latino-americano de Psicologia Junguiana- Junho, 2015 – "Conflicto y creatividad, puentes y fronteras arquetípicas" – Buenos Aires, Argentina (clique aqui para visualizar o folder)

XXIII Congresso da AJB – novembro, 2016 - "A Práxis Analítica" – Ouro Preto, MG (clique aqui para visualizar o folder)

XXIV Congresso da AJB - agosto, 2017 – "Fronteiras" - Foz do Iguaçu, PR


Memória

James Hillman (1926 - 2011)

James Hillman (1926 - 2011)

Leia nota sobre o falecimento de James Hillman escrita por Gustavo Barcellos e poste seu comentário clicando aqui.

Mario Jacoby (1925-2011)

Mario Jacoby (1925-2011)

Leia o obituário de Mario Jacoby escrito por Walter Boechat clicando aqui.

50 Anos da Morte de C.G.Jung

50 Anos da Morte de C.G.Jung

Leia os artigos sobre os 50 anos sem Jung, clicando aqui.

Sr. CARLOS ALBERTO CORREA SALLES (1949 – 2014)

Carlos Alberto Correa Salles (1949 – 2014)

Leia obituário de Carlos Alberto escrito por Romeu Cardoso Guimarães, clicando aqui.

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A COMEMORAÇÃO DOS 50 ANOS DA MORTE DE C.G.JUNG

Walter Boechat

Instituto Junguiano do Rio de Janeiro

Dia 06 de junho de 2011 a comunidade junguiana em todo o mundo está comemorando os cinqüenta anos da morte de C.G.Jung. É um acontecimento da maior importância. Creio que decorridos esses anos após o falecimento de um dos maiores pensadores do século passado, aquele que foi, juntamente com Freud, um dos fundadores da psicologia do inconsciente contemporânea, podemos avaliar toda sua influência na cultura atual.

A psicologia analítica tem se mostrado presente nos mais diversos campos do saber, nas artes, principalmente no teatro no cinema. O conhecido diretor Federico Fellini já declarou em entrevista a influência do pensamento de Jung em seus filmes. Em nosso meio cultural, o diretor teatral Sérgio Britto encenou belíssima peça teatral, texto de Domingos de Oliveira e Giselle Kosovski, com tema centrado na vida de Jung: “Jung e Eu”, com grande repercussão de público e entre a crítica especializada. O próprio Sérgio Britto viria a prefaciar uma edição especial de Memórias, Sonhos e Reflexões editada pela Editora Nova Fronteira em 2006.

Paralelamente a essa penetração nas artes e na cultura, processo que já se desenvolve durante longo tempo, a psicologia analítica voltada para a clínica e a pesquisa teve um desenvolvimento significativo penetrando no mundo acadêmico. Esse processo julgo ser muito importante, um crescimento e uma maior aceitação na universidade das aplicações terapêuticas e experimentais da idéias de Jung e seus seguidores. Tem havido significativo desdobramento em aplicações da psicologia analítica ao tratamento de neuroses e casos graves diversos em consultório, um estudo mais aprofundado do processo da transferência, com seus desdobramentos arquetípicos. Todo esse processo levou a um gradual crescimento da presença da psicologia analítica na universidade em cursos de Pós-Graduação de lato e stricto sensu.

As crescentes atividades da Associação Internacional de Psicologia Analítica, ou International Association for Analytical Psychology (IAAP) são uma boa mostra dos desdobramentos e influências da psicologia analítica em todo o mundo. A IAAP tem como função congregar Associações Junguianas oficializadas em diversos países e culturas. Inicialmente a IAAP teve representantes limitados à Europa e América do Norte. Posteriormente, a escola junguiana cresceu de forma intensa na América Latina, na Europa do Leste, na África do Sul e no Oriente, com grupos junguianos na China e na índia. A Obra Completa traduzida de Jung foi lançada em países de culturas tão diferentes como Rússia, Japão e Brasil. A IAAP tem fomentado a formação de analistas nos diversos países, bem como a divulgação da psicologia analítica em palestras, conferências e publicações de livros e revistas especializadas.

No Brasil a Editora Vozes tem feito um notável trabalho de divulgação do pensamento de Jung em três frentes principais: a publicação da Obra Completa de Jung, a edição histórica brasileira do Livro Vermelho ou Liber Novus de C.G.Jung em 2010 e a publicação de uma coleção de autores junguianos, Reflexões Junguianas, a partir de 2009.

A vasta obra completa de Jung, uma coleção de grossos tomos que totalizam vinte volumes foi um trabalho enorme, durante vários anos, que envolveu equipe multidisciplinar que se dedicou à tradução a partir dos originais em alemão. Para comemoração desses cinqüenta anos da morte de Jung a Editora Vozes lançou nova edição da Obra Completa com diversos ajustes significativos. A obra “A energia Psíquica”, Vol. 8, teve sua tradução aprimorada. Foi lançado pela primeira vez em língua portuguesa o volume de índice geral, analítico e onomástico. Esse volume de índice geral é fundamental para os pesquisadores da obra de Jung e para universitários que realizam trabalhos acadêmicos.

A presença da psicologia analítica em todo o mundo nesses últimos cinqüenta anos pode ser pensada levando-se em conta a mudança de paradigma que tem se operado na cultura ocidental nas ciências e nas artes. A palavra paradigma, que vem se tornando uma espécie de lugar comum no pensamento contemporâneo, precisa ser bem compreendida. Vem do grego para = além de, deigma = manifestação. Esta tradução da palavra paradigma nos parece bem mais acurada que as traduções normalmente dadas de modelo ou protótipo, no sentido platônico, pois visto assim, o paradigma é algo estático, preso ao passado, enquanto que como manifestação de um valor novo, aponta dinamicamente para o futuro, e é neste sentido que os paradigmas funcionam como orientadores do corpo do pensar científico.

A mudança de paradigma é bastante mais evidente em épocas de crise, embora não sejam claras as direções para onde aponta, tal como a chamada pós - modernidade, que sucederia à modernidade. Há uma certa dificuldade em atrelar as mudanças paradigmáticas a um estatuto específico do Zeitgeist contemporâneo, a uma era pós- moderna que se seguiria a uma era moderna. Se é sabido que a idade moderna teve início com a tomada de Constantinopla pelo turcos no século XIV, não devemos esquecer que este início não ocorreu nesta data precisa, mas lentamente, através de graduais câmbios históricos. Da mesma forma, discute-se também se a idade moderna terá realmente terminado. É fato que vivemos uma grave crise dos ideais da modernidade. Em lugar dos valores da revolução francesa de liberdade, igualdade e fraternidade, tivemos um século de duas grandes guerras, com milhões de mortos.

A globalização, em vez de promover a fantasia arquetípica da inclusão, tem promovido, ao contrário, o benefício de uma escassa minoria e a exclusão de grandes massas. Os recentes genocídios na Europa do leste e em outras partes do globo reafirmam o direito dos mais fortes sobre os mais fracos, e antiga máxima do tribunal do vencedor: “só há um verdadeiro crime de guerra: não vencer o inimigo”.Toda esta falência evidente dos ideais da modernidade não evidenciam de forma clara uma pós- modernidade com seus contornos nítidos. O que temos, sem dúvida, são evidentes mudanças globais em nível sociológico, antropológico e psicológico, mudanças paradigmáticas.

Quando teria a idade moderna de fato terminado? O que temos certeza é que está havendo um gradual mudança de paradigma, nas ciências, a começar pela física e nas demais. A mudança de paradigma é acompanhada por uma crise evidente e bem marcada dos valores da modernidade, alguns dos quais mencionei antes. A fantasia de bem estar social do positivismo e do marxismo caíram por terra. A indústria da guerra no século passado e seu incrível número de mortos (mais de 20 milhões de pessoas, muito superior ao da peste negra na idade média) colocam e xeque os valores da modernidade. Jung critica fortemente alguns valores da modernidade, por exemplo, seu racionalismo exacerbado, la déese raison, que deixa de lado os valores irracionais da experiência imediata, que nem sempre podem ser explicados racionalmente, mas que são dados da experiência.

A obra de Jung inicia-se sob a égide do antigo paradigma hegemônico do século passado, o dualismo cartesiano extrovertido, o positivismo de Comte com sua Lei dos três estados, segundo a qual a teologia evolui para a metafísica e esta para a ciência, que se torna assim, a rainha do conhecimento. Os trabalhos de associação de palavras com os quais Jung definiu os complexos e sua importância para a psicopatologia, obedecem a esse paradigma. É sabido que Jung pode, por esses testes de associação, detectar e circunscrever experimentalmente os complexos inconscientes. Nestes trabalhos iniciais, Jung trabalhou dentro do paradigma mecanicista causal, positivista. A detecção dos complexos se dá de forma eminente experimental, com o de palavras- estímulo, medidas de tempo de reação entre palavras- estímulo e palavras- resposta, com o uso de um cronômetro regulado em quintos de segundo. O tempo de reação prolongado se torna o principal indicador de complexo.

Jung lançou mão ainda de um sofisticado (para a época) instrumental de detecção de constelações de complexos a nível fisiológico. O pneumógrafo, um medidor do fluxo de gás carbônico respirado, e o galvanômetro, um medidor de variação de potencial de corrente elétrica. Tudo isso porque, estando o complexo ativado, reações fisiológicas ocorreriam, a sudorese nas mãos do sujeito favoreceria uma maior passagem da corrente elétrica, já que suas mãos estariam tocando os pólos elétricos. O voltímetro acusaria a maior diferença de potencial. Quando Jung detecta os complexos através deste trabalho configurado dentro de uma psicologia estritamente experimental, atuou dentro do paradigma tradicional.

Nesta época Freud iniciava suas explorações do inconsciente, e a própria noção de inconsciente já desafiava o academicismo de então, despertando forte resistência. Suas comprovações acerca do inconsciente se baseavam em descobertas clínicas, inferindo suas teorias através de observação de pacientes histéricas.

O método experimental de Jung comprovando a existência de complexos inconscientes, era uma confirmação experimental da existência de conteúdos incompatíveis no inconsciente, o que reforçava as idéias de Freud. Esta foi uma das razões, em nossa opinião, de Freud ter nomeado Jung seu “príncipe herdeiro”, e da estreita colaboração entre os dois pensadores durante vários anos. O referencial de inconsciente, até então mencionado apenas no domínio da filosofia, com C.G. Carus e Von Hartmann, foi trazido para a psicologia pelo trabalho pioneiro de Freud. É verdade que Pierre Janet procurou fazer uso deste referencial, mas o inconsciente para Janet nunca passou de une façon de parler, “uma maneira de falar”, como ele próprio considerava.

Desde o princípio Jung desenvolveu um trabalho independente do de Freud, por isso considero inexato considerá-lo um discípulo de Freud que depois discordou de vários pontos da teoria freudiana e se afastou do movimento. Jung, desde o início, trilhou um caminho próprio, embora nutrisse grande admiração por Freud e desfrutou com ele de vários anos de profícua colaboração. Mesmo se considerarmos o período Zofíngia, o clube estudantil ao qual Jung pertenceu quando estudante universitário, ainda jovem, em 1896, e ‘97, vemos nele, em suas palestras, uma discordância do materialismo científico do século XIX, com sua ênfase econômica e comercial. Por então, em sua sensibilidade e intuição, Jung discordava não só do materialismo científico mas da modernidade como tal.

Os encontros com Einstein, quando Jung foi contemporâneo do cientista e ambos ensinaram na E.T.H., Escola Politécnica de Zurique, em 1905, e o encontro posterior com Wolfgang Pauli, prêmio Nobel de física e paciente de uma das suas colaboradoras, influenciaram enormemente Jung em sua abertura para o novo paradigma emergente, o paradigma não causal ou paradigma da complexidade (Edgar Morin).

A ruptura com o paradigma antigo se dá em 1912, com o livro Símbolos de Transformação, e cristaliza-se, após sua correspondência com Wilhelm em 1928, pela qual seu interesse pela alquimia chinesa foi ativado, e o início de seus trabalhos sobre alquimia e sincronicidade. As contribuições centrais de Jung na cultura atual se dão em todos os campos envolvidos pelo novo paradigma emergente: religiões, psicopatologia, ecologia, artes e humanismo.

Em Símbolos de Transformação, Jung aprofunda a ruptura com o paradigma tradicional com a aplicação da noção de amplificação. Estudando o material escrito de Mrs. Miller, uma paciente de Théodor Flounoy, paciente que Jung nunca encontrou pessoalmente. A partir de suas poesias e escritos, Jung elabora a questão da existência de imagens mitológicas universais, imagens primordiais, que mais tarde, em 1919, Jung chamaria de imagens arquetípicas.

Neste trabalho, feito apenas levando em conta as imagens coletivas, Jung procura chamar a atenção para uma camada impessoal, comum a toda humanidade, o inconsciente coletivo. Um corte epistemológico importante estava sendo dado: a memória individual não poderia ser negada, deveria ser tratada pelas associações pessoais como quer Freud, entretanto, um outro nível de elaboração pode ser trabalhado, o nível do inconsciente coletivo, através das amplificações.

Neste importante trabalho, Jung escreve, por exemplo, sobre a mãe dual, aquela que contém tanto os aspectos positivos quanto os destrutivos, é tanto a Grande Mãe acolhedora, quanto o dragão ameaçador. No processo de individuação, o herói deverá matar o dragão, para a construção de consciência. Nesta formulação em nível arquetípico, encontramos um paralelo ao que Melaine Klein iria desenvolver tempos depois, com relação ao seio bom e ao seio mal (Samuels, 1985). Enquanto Klein se move em nível do desenvolvimento individual, Jung elabora um referencial mitológico arquetípico.

A mitologia serviu de base para a elaboração teórica da amplificação, que tem tanto um valor heurístico para a comprovação da existência do inconsciente coletivo, quanto um aspecto clínico. Na clínica, a amplificação serve para retirar o paciente do isolamento que sua neurose o mantêm, na medida em pode perceber que sofrimento não é só dele, mas uma situação universal. Para o terapeuta, a amplificação trás a percepção mesmo de um prognóstico.

A mitologia foi descoberta por Jung como um conteúdo típico do inconsciente a partir de seus trabalhos com pacientes psicóticos, no início do século, mas o uso das imagens como conteúdos coletivos foi estendido, de forma sistemática, após seu trabalho de 1912. O estudo de alquimia a partir de 1928 marca a entrada radical de Jung no terreno do novo paradigma. Como reporta Jaffé, a alquimia se tornou o pano de fundo de toda a obra de Jung, e a ela ele dedicou os últimos trinta anos de seu processo criativo. (Jaffé, 1972).

Segundo Jung, o inconsciente teria também um aspecto histórico. O material arcaico gnóstico encontrado em sonhos e fantasias de pacientes europeus modernos, deveria ter uma ponte para o presente, sem solução de continuidade. Este elo perdido, esta transição, Jung encontrou - os na alquimia. Quanto aos aspectos simbólicos da alquimia e sua relação com o processo de individuação, ao que tudo indica pelos escritos posteriores de Jung, a explicação de que os processos do trabalho alquímico seriam “projeções” do inconsciente do alquimista, portanto encerrariam todo o simbolismo do processo de individuação parecem ser insuficientes para o entendimento de conceitos posteriores que Jung formulou a partir de seus estudos alquímicos.

Refiro- me aos conceitos de arquétipo psicóide, unus mundus e sincronicidade. Estes conceitos já pertencem inteiramente ao novo paradigma e só podem ser entendidos a partir de uma nova visão de homem e sua inserção na realidade. O arquétipo psicóide diz respeito a uma camada da psique que não se limita ao mundo mental, mas mergulha no mundo material. As explorações de Jung nesta direção abrem caminho para importantes questões atuais cujo campo experimental está aberto, como as relações entre a mente e o corpo. Poderão certos eventos chamados psicossomáticos serem abordados a partir do arquétipo psicóide e da sincronicidade? Esta é uma questão fascinante e creio que a psicologia analítica tem muito a dizer e contribuir junto à psicanálise e outros saberes, numa abordagem transdisciplinar.

É esta uma das questões nas quais a psicologia analítica tem muito o que contribuir para o futuro da psicoterapia. Mas concordo com Andrew Samuels que levantou a importante questão da interdisciplinaridade. Samuels (1998) enfatiza a importância de que estudos junguianos nos limites de pesquisa nas quais outros ramos do saber são referidos, de que estes trabalhos sejam feitos de maneira interdisciplinar com especialistas destas áreas.

Julgo esta colocação extremamente coerente, pois a psicologia analítica, sendo uma obra aberta, comunicando com diversas áreas do saber permite e muitas vezes exige, o uso do conhecimento de outras áreas. Entretanto, é interessante lembrar que o próprio Jung freqüentemente trabalhou de forma Interdisciplinar, conseguindo com isto, maior rigor em suas pesquisas: em mitologia com Karoly Kerényi, em religião com Mircea Eliade e Richard Wilhelm, em estudos gnósticos com Quispels e nas relações da mecânica quântica com psicologia com Wolfgang Pauli. Os vários pensadores de diversas áreas que participaram dos encontros anuais multiculturais de Eranos tiveram influência enorme no pensamento de Jung.

Portanto, as pesquisas futuras com relação à interação da física moderna, por exemplo, e o arquétipo psicóide, deve ser bastante criteriosa. O analista junguiano deverá ser cauteloso em comparações com áreas do saber que não lhe são familiares, buscando respaldo numa interdisciplinaridade responsável.

Muitos vêem a pós- modernidade um certo niilismo, uma negação dos valores alcançados pela modernidade.As premissas da modernidade, baseadas largamente nos valores contemporâneos da civilização industrial de produção e consumo, tem seu ponto de referência, psicologicamente falando, no ego, e suas relações objetais. A psicologia analítica oferece, ao contrário, um ponto de referência adicional para o indivíduo, o conceito de Self. O conceito do Self em princípio já relativiza o conceito monoteísta de ego, ou consciência de foco único no ego. O Self pressupõe outro tipo de consciência, que obriga ou abriga a condição mesma de um diálogo do ego com o Self. Além do mais, há um fluxo constante de imagens a ser considerado, que não são um produto colateral do ego, mas se originam no eixo ego - Self.

A pós - modernidade faz uma revisão das relações de poder comparando o relacionamento do escritor e do leitor em forma mais igualitária. Grosso modo, podemos comparar a relação de paridade que Jung propõe entre paciente e analista. (Hauke, 1998). Darwin e Freud tiveram importância fundamental na superação das certezas racionais do iluminismo. Na verdade, a descrição do inconsciente e a teoria da evolução extirparam a falsa noção de que o fenômeno humano era algo como que separado da natureza e do mundo observável. Entretanto, o “elo perdido” permaneceu e só pode ser recuperado através de um paradigma totalmente novo. Julgamos que a questão da sincronicidade abordada por Jung pode ser o referencial adequado para transcender o gap homem - natureza.

Na verdade, a teoria arquetípica vai além de uma superação de uma cisão entre o individual e o coletivo. Com a questão do arquétipo, Jung toca o fundamento sobre o qual a modernidade se baseia em suas realizações, a cisão mente - matéria, como é formulada pela filosofia do iluminismo. Lembramos que o arquétipo é o fundamento da totalidade psicofísica, no qual, a um extremo do espectro está o instinto, no outro, a mente. Esta formulação é a base das formulações sobre a sincronicidade.

Para Marx e Freud ilusão e fantasia foram conceitos chaves para entender o mal estar na civilização, com a repressão da sexualidade e sociedade capitalista com sua mais - valia resultante da exploração da classe trabalhadora. Para Jung, é muito mais a consciência moderna que é a origem da neurose e não tanto o mal estar da civilização. (Hauke, op. cit., p. 291). Refletindo sobre a crise da cultura e da consciência moderna dentro de uma colocação “aberta”, em vários níveis, a relação entre mente e matéria, as realidades interna e o externa, a psicologia analítica se insere na pós - modernidade. Portanto, situando a psicologia analítica neste amplo espectro de possibilidades dentro do novo paradigma, podemos, com algum otimismo, divisar muitos e importantes desdobramentos para o pensamento junguiano em futuro próximo.

Neste momento de questionamento de valores tradicionais, é importante entendermos o estado atual da psicologia analítica para pensarmos seus futuros desdobramentos. Como se situa a psicologia analítica hoje? Vejo os chamados pós- junguianos procurando se situar dentro do legado de Jung de forma bastante complexa. Concordamos também com Papadoupolos (1998) que afirma que a identidade do analista, sua experiência pessoal e profissional é que vai determinar sua maneira de trabalhar. Temos a convicção que são inúmeros os fatores que levam um analista a trabalhar de determinada forma, além da diversidade de experiências profissionais que poderá ter, principalmente as análises por que passou e as supervisões que teve.

Para pensarmos em futuro e desdobramentos no novo século, temos que ter uma visão ampla da psicoterapia que recentemente completou seu primeiro século de existência. Hillman (1992) estendeu-se já sobre este aspecto, tendo uma visão pessimista em relação à psicoterapia e o mundo atual “que está se tornando pior”.

Quando discutimos a presença da psicologia analítica no mundo de hoje, não podemos dissociá-la da psicanálise, pois são abordagens que, embora guardando suas diferenças, têm como referencial o inconsciente, priorizam os conteúdos do inconsciente, e diferem bastante das psicoterapias comportamentais que priorizam o aprendizado a partir de estímulos externos, atos reflexos e condicionamento. Além do mais, quando há uma enorme especialização no campo da medicina e das ciências da saúde, não podemos, de forma narcísica, pretender tratar de todos os sintomas psíquicos. As doenças psicossomáticas deverão envolver muitas vezes o médico de família, as psicoses, o uso de medicação por um psiquiatra clínico, as fobias sociais podem responder em muitos casos, a uma terapia comportamental. Distúrbios narcissísticos de personalidade requerem uma terapia analítica de longa duração. Já estados dissociativos graves, levam normalmente a atuações e não respondem a uma abordagem psicoterapêutica isolada de forma satisfatória. (T. Penna, 1999).

Gradualmente, a psicologia analítica deverá ter uma inserção política cada vez maior. O mundo interno não pode ser tomado dissociado de eventos externos, sociais, isto é, o fenômeno psicológico deve ser sempre tomado em contexto. Não se pode compreender um homem em processo de individuação solitário, pois ele deverá ser perfeitamente solidário.

Murray Stein, analista junguiano de Chicago, ex-presidente da IAAP, em sua visita à América Latina em 1990 ficou impressionado, segundo me relatou, com a enorme mobilidade e articulação da psicologia analítica em forma de novos grupos e junto às universidades. Stein julga o pensamento junguiano de certa forma mais cristalizado nos países desenvolvidos. Estou procurando aqui raciocinar em contexto de tempo e local. Porque a psicologia analítica tem recentemente se expandido junto ao meio universitário brasileiro e mesmo uruguaio e venezuelano? Stein, em comunicação pessoal, chamou-me atenção para uma possível relação entre a queda do muro de Berlim, o desencanto com o ideário comunista como algo factível a curto prazo e a penetração maior da psicologia analítica em nível planetário.

Realmente, as atividades da IAAP (Associação Internacional) para uma maior difusão das idéias de Jung tem sido intensa nesta década. Vários analistas junguianos têm ido à Rússia, Polônia e outros países do leste europeu divulgar as idéias de Jung; as obras completas junguianas estão sendo traduzidas para o russo e outras línguas do leste europeu. (A Obra Completa de Jung em Russo já está disponível há alguns anos). A existência de analistas junguianos pertencentes à IAAP em locais distantes como Japão, Nova Zelândia e Austrália já é fato muito conhecido por nós. Mas a presença de países do leste europeu e mesmo China e Índia na comunidade junguiana é algo novo e merece ser olhado com atenção se quisermos propor ou divisar futuros possíveis para a psicologia analítica.

Numa visão das relações da psicologia analítica e da psicanálise com relação à política, as duas grandes correntes têm ocupado posições quase que antitéticas. A psicanálise é sempre vista pelos intelectuais de todo o mundo, como um saber mais engajado politicamente, enquanto que no imaginário coletivo a psicologia analítica tem ocupado, infelizmente, o lugar de um saber mais conservador; um reflexo talvez das projeções negativas feitas sobre um Jung, visto por alguns como um burguês suíço conservador, cujas teorias não se aplicam de forma alguma ao bem estar social.

É sobre estes pontos de vista que raciocinou Murray Stein. Sabemos, entretanto que a fantasia de que a individuação leva à alienação é uma compreensão errônea e bastante superficial das idéias de Jung. A intelectualidade do Brasil em particular e da América Latina em geral aderiu à psicanálise vendo nela uma crítica ao modelo burguês, à tradição burguesa, fazendo uma ponte entre o recalque no indivíduo e a repressão ditatorial dos regimes militares.

No Brasil, psicanalistas se tornaram símbolos da defesa de liberdades individuais, como no caso de Amilcar Lobo, denunciado por Hélio Pellegrino e outros. A psicanálise de modo geral, sempre esteve, portanto, engajada, como se diz. No entanto, a psicologia analítica também está engajada, o analista junguiano está consciente do contexto social em que vive. Após a perda de status do comunismo como solução perfeita para os males da civilização, espaços maiores são ocupados pelos junguianos junto a artistas e junto ao meio acadêmico. Pensar segundo as imagens do inconsciente coletivo não é se alienar do social, mas participar dele de forma mais criativa.

Diversos autores junguianos têm se inquietado com a questão social de diversas formas. Hillman, escrevendo de forma mais abstrata, usa de imagens alquímicas para falar de uma premência que sente de uma crítica mais rigorosa da questão social, do mundo “lá fora”. Fala em passar do “albedo” (mundo subjetivo) para o citrinitas, fase amarela do opus, como o mundo externo a ser questionado e transformado. Samuels publicou A psiqué Política (1998) e mais recentemente, A política no divã (2003) onde usa mais a função sensação extrovertida para situar Jung e a psicologia analítica em contexto social e político.

A teoria junguiana pode e deve ser levada ao contexto social brasileiro. Anos atrás o Instituto Junguiano do Rio de Janeiro organizou uma série de conferências e debates com o título “Manifestações do Inconsciente coletivo Brasileiro”. Da mesma forma, os Congressos Latino- Americanos de Psicologia Analítica já realizados com peridiocidade de três anos no Rio, Punta del Este, Salvador (Bahia) e Santiago tem servido para que reflitamos junto com os colegas junguianos da América Latina sobre nossa identidade cultural, nossos problemas comuns e possíveis soluções.

Sem dúvida, a presença da psicologia analítica no contexto da América Latina nos parece promissor, principalmente tendo em conta a ênfase que é dada no pensamento junguiano ao mundo das imagens, a imagem é priorizada em relação à palavra. A questão da fantasia, da imagem psíquica e do símbolo, como fator psíquico fundamental é enfatizada. A cultura latino-americana é uma cultura de imagens. A tradição multirracial facilita a presença contínua de imagens como meio fundamental de identidade cultural, de maneira diferente da tradição européia, centrada no falar e na palavra.



Bibliografia

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Hillman, J. e Ventura, M. - We’ve had a Hundred Years of Psychotherapy and the World’s Getting Worse. Harper, San Francisco, 1992.

Jaffé, A - From the Life and Work of C.G. Jung. Hodder and Stouhton, London, 1972.

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---------------- - Jung e os Pós-Junguianos. - Imago, Rio de Janeiro, 1990.

--------------- - A Psiqué Política. - Imago, Rio de Janeiro, 1995.

Papadoupolos, R. - Jungian Perspectives in New Contexts. In: Post Jungians Today. Ed. por Casey, A . Routledge, Londres e Nova York, 1998.

Penna, T. - Conferência no Instituto de Medicina Psicossomática do Rio de Janeiro, outubro de 1999.



Carl Gustav Jung: Uma "Força guia"

Rosa Brizola Felizardo

Instituto Junguiano do Rio Grande do Sul

Dia 06 de junho de 2011 a comunidade junguiana em todo o mundo está comemorando os cinqüenta anos da morte de C.G.Jung. É um acontecimento da maior importância. Creio que decorridos esses anos após o falecimento de um dos maiores pensadores do século passado, aquele que foi, juntamente com Freud, um dos fundadores da psicologia do inconsciente contemporânea, podemos avaliar toda sua influência na cultura atual.

C.G.JUNG, humanista da filosofia romântica, nos trouxe amplitude de um pensamento circular e dinâmico que se nega a perder a possibilidade de abranger a totalidade dos fenômenos da psique. Sua postura transdisciplinar, constitui uma “força-guia” catalisadora que abre caminhos, hoje e sempre, a novos conhecimentos.

Opondo-se com esse entendimento ao reducionismo positivista e ao conhecimento específico e super-especializado, vistos por ele como uma enorme desvantagem, porque tornam impossível explicar qualquer coisa, em virtude da perda da totalidade dos fenômenos. Conforme a Segunda Conferência de Tavistock de 1935, JUNG abraça uma postura de transdiciplinariedade, buscando um diálogo catalisador das diversas ciências como a solução para a fragmentação do conhecimento. Com esta atitude diferenciada é claro que encontrou muitos obstáculos entre os homens de ciência de sua época, pois a maioria deles não conseguia acompanhar a circularidade e a amplitude de seu pensamento. E hoje? No ano de 2011, cinquenta anos após sua partida, é possível compreender seu pensamento?

A psicologia para JUNG é a ciência responsável por revelar a lógica da alma, em sua obra Tipos Psicológicos, ele afirma ser essa uma “ciência mediadora” que se propõe compreender “a idéia e a coisa” (sujeito e objeto) sem violentar nenhuma delas. Ressaltando em sua abordagem que o método da psicologia analítica é pedagógico, de auto-educação e auto-aperfeiçoamento. Onde só o sujeito que se transforma pode transformar o mundo. Ele afirma:

“O que no passado era método de terapia converte-se aqui em método de auto-educação, e com isso o horizonte da nossa psicologia abre-se, repentinamente, para o imprevisível”. (Vol. VI,Pg.71)

Este princípio, de sistemas que se inter-relacionam proposto por Jung, seja na relação analista e paciente ou em qualquer das relações, reconhece a presença dos antagonismos típicos do homem e da natureza, propondo que somente através do constante diálogo surgirá um terceiro elemento criativo capaz de conter em si a presença dos opostos. Ao trazer-nos a psicologia dos arquétipos do inconsciente coletivo, Jung demonstrou que estes encerram em si os opostos da mais extrema polaridade e apesar dela mostram uma tendência permanente de união. Ele ilustra:

Uma antítese ou é constituída de dois pólos opostos ou não é antítese, e um ser é totalmente inconcebível sem uma polaridade, porque, de outro modo,seria impossível estabelecer sua existência.” (Vol. VIII,p.149 ).

Uma atitude de inclusão do que foi negligenciado, é o único meio capaz de dar lugar a um diálogo honesto do homem consigo e com o mundo, evitando a identificação com uma consciência coletiva, massificada e incapaz de abranger a singularidade e diversidade do homem e da natureza. Um paradigma de Complexidade que revela novas possibilidades críticas de aprender a compreender as diversidades e sua interdependência. Um pensamento flexível, aberto e harmônico que lança pontes, ligas e vínculos para a compreensão de que o desconhecido é também válido e no diálogo com ele é que se pode imaginar um mundo de equilíbrio, tolerância e paz. Uma visão de mundo inclusiva, holística, criativa, complexa é o legado maior de JUNG que somente agora, no século XXI passa a nortear as ações humanas como uma “força-guia”, que como uma senha dá acesso a novos caminhos, fazendo-nos perceber o quanto a sua mente conectiva e generosa esteve muito a frente de sua época, e o quanto temos ainda a aprender nos próximos cinqüenta anos a partir da sua capacidade de “Epojé”, um estado de suspensão, de repouso mental, pelo qual nem afirma, nem nega qualquer realidade do homem e do mundo.

CLARKE,J.J.Em busca de Jung.Rio de Janeiro: ediouro, 1993.

COTRIM,G./Fundamentos da filosofia. São Paulo: saraiva, 1988.

JUNG.C.G.Obras completas vol.VIII. Petrópolis: vozes, 2000.

JUNG.C.G.Obras completas vol. VI. Petropolis: vozes, 1991.

PEREIRA E HANNAS.Educação com consciência. São Paulo: gente, 2000.

YOUNG-EISENDRATH.Manual Cambridge. Porto Alegre: artmed, 2002.



A força de um simples senão

Tereza Caribé

Instituto de Psicologia Analítica da Bahia

Os 50 anos da morte de Jung nos convidam a um amplo reconhecimento da importância do seu pensamento, no cenário dos grandes debates da atualidade. Embora o interesse pelas idéias de Jung seja crescente, seu pensamento, ainda hoje, é olhado com certa reserva pelos “guardiães acadêmicos da nossa cultura” que permanecem aderidos a conceitos e valores modernos – muito embora, a modernidade mesma esteja em crise. Crise inexorável: implica uma transformação mesmo da maneira de conhecer, de produzir conhecimento. A desconstrução em vários campos do conhecimento contribui para uma nova visão de mundo que passa a interrogar o des – encantamento, produto de uma ciência mecanicista/determinista, e com isso novas perguntas emergem sobre a natureza da matéria, da vida e da psique humana.

Tendo presente esta visão de mundo emergente, é interessante estar no século XXI, principalmente, porque mudamos de perspectiva e podemos olhar o século XX, desde um outro lugar, de um outro ângulo, pois já conhecemos um outro devir, uma outra temporalidade inscrita no novo século. Vamos nos dar a liberdade de perguntar o que significou fazer ciência no século XX e também o que significa não estar de acordo com o proceder científico no que se refere à psique! Sabemos que Jung pôs um senão a este proceder científico e que este senão custou-lhe muito. A força de um simples senão inaugura um novo paradigma na psicologia e muda a maneira de produzir conhecimento e também de praticar a psicoterapia.

Thomas Kuhn, nos anos 70, estudou o papel dos paradigmas na ciência e, sobre esta questão, escreveu um livro muito importante: A estrutura das revoluções científicas. Eder S. Santos assim define a proposta kuhniana: ¨Kuhn critica o posicionamento segundo o qual o desenvolvimento da ciência é um processo racional governado por regras atemporais de procedimento. Ele prefere crer (...) que a prática da ciência é constituída não por regras universais, mas por tradições ¨locais¨ de pensamento, que são definidas por um grupo particular, cujos problemas, métodos e teorias devem figurar como científicos. Poder-se-ia dizer que essa é uma visão sociopsicológica da ciência.

Sabemos como Kuhn foi alvo de críticas, mas também sabemos que é impossível discorrer sobre o paradigma científico sem citá-lo. Já no entardecer do século XX, Kuhn trouxe à tona a questão central desse século: o que afinal significa fazer ciência? Sua contribuição pôs por terra uma das certezas científicas mais empedernidas: o pensamento científico – diferentemente de outros pensamentos – seria neutro, imune às determinações sociais, governado pela razão e não pela tradição. Ou ainda, o fazer científico estaria estruturado em torno de um procedimento universal lógico e a-social. Como vimos, para Kuhn, o fazer científico é governado por tradições locais assumidas por uma comunidade de cientistas que define então teorias, métodos e regras do proceder científico.É neste sentido que Kuhn aposta em uma visão sociopsicológica da ciência. Se um paradigma científico governa – como diz Kuhn – não um objeto de estudo, mas um grupo de praticantes da ciência então cabe a pergunta: O que nós analistas fazemos é ciência? Os psicanalistas certamente diriam que sim e os analistas junguianos hesitariam em responder afirmativamente.

Sob o domínio dos ideais modernos, a Psicanálise adotou a Física newtoniana como modelo de cientificidade. Da mesma maneira que os cientistas da virada do século XIX, também Freud procurava leis, causas e regras que explicassem o funcionamento da mente humana, entendendo-a como um mecanismo capaz de ser compreendido em suas diferentes instâncias psíquicas. Essa lei universal, como sabemos, na psicanálise, é o complexo de Édipo. Cito Éder Soares: ¨O complexo de Édipo só poderia ser considerado universal se representasse uma lei, sendo aqui lei entendida como princípio fundamental da ciência natural que, assim como o conceito de causa, deve determinar uma constância possível de ser observada entre fenômenos ou comportamentos, assim como deve ser preditível¨ ... Freud explicou a constituição das psico neuroses a partir de causas e com isso pode universalizar alguns de seus conceitos, entre eles o complexo de Édipo.

O senão de Jung aparece exatamente aí e passado um século, ainda convivemos com esse mesmo embate no campo da psicoterapia : o confronto de dois paradigmas através de Freud e Jung. Em um primeiro momento, de 1900 a 1909, especificamente relacionado aos experimentos de associação de palavras, Jung adere ao modelo científico vigente e tenta um projeto científico para a psique. Rapidamente, porém, esse projeto se esgota . Depois do rompimento com Freud, este senão de Jung ganha espaço. Reisdorf, referindo-se a este momento diz: “Jung diz não à causalidade e não à universalidade do complexo de Édipo e, então, diz não ao projeto científico tão caro a Freud. Melhor dizendo: Jung afirma que a psique é metade ciência e metade arte ; importa-lhe o por quê e o para quê. É daí que nasce para a psique um projeto estético”. Já em 1914, após a ruptura com Freud, Jung, no apêndice ao artigo “O conteúdo das psicoses,¨ . dá sinais de insatisfação com o projeto cientifico. Contrapondo-se à psicanálise freudiana, identificada com o método científico redutivo-causal voltado para o passado e operando segundo a redução de fenômenos complexos a seus elementos mais simples e gerais, Jung propõe a adoção de um método de compreensão- prospectivo voltado para o futuro e visando à ampliação ou desenvolvimento dos conteúdos inconscientes. Para comparar os dois métodos, Jung escolhe dois exemplos: no primeiro sugere que busquemos entender uma catedral gótica a partir de uma compreensão retrospectiva qual seja , histórica, técnica, mineralógica. Se utilizássemos apenas esta visão perderíamos o sentido desta extraordinária e magnífica obra. No segundo exemplo ele escolhe a análise da segunda parte do Fausto de Goethe e afirma:

Se a psicanálise que segue a orientação de Freud obtém êxito ao elaborar uma conexão concludente e exaustiva entre o desenvolvimento sexual infantil de Goethe e o Fausto, ou, segundo a versão de Adler, entre o desejo infantil de poder de Goethe e sua obra, ela cumpre uma tarefa muito importante, a de mostrar como uma obra de arte pode ser reduzida ao esquema mais simples. Mas será que Goethe criou essa obra com essa finalidade?

A interpretação redutivo-causal, se usada para compreendermos tanto catedral quanto o Fausto de Goethe, nos levará apenas a um entendimento de como uma obra de arte foi realizada mas nada dirá sobre o sentido da criação dos artistas.Diante de uma obra de arte é preciso perguntar pelo telos, pelo sentido, pela finalidade, porque o processo criativo é livre e é assim que Jung estabelece uma analogia entre arte e Psicologia.

A interpretação sintético construtiva passa a ser o método, por excelência, usado na clínica junguiana. Ao invés de limitar-se a decomposição do material psíquico, tentando conhecer seus elementos constitutivos e presumivelmente etiológicos, passa a tratá-lo como expressão simbólica do inconsciente, permitindo ao terapeuta colocar-se como alguém que se encontra diante de um dado novo, desconhecido. Com a pergunta para que?, o analista vê-se às voltas com novos significados e potenciais desconhecidos que poderão definir linhas futuras do desenvolvimento psicológico do individuo. Na clínica, a psicologia analítica se propõe a ser uma arte.

Não é o universal e o regular que caracterizam o indivíduo, mas o único. Ele não deve ser entendido como unidade recorrente, mas como algo único e singular que, em última análise, não pode ser comparada nem mesmo conhecida.(...) Se pretendo conhecer o homem em sua singularidade, devo abdicar de todo o conhecimento científico do homem médio e renunciar a toda teoria de modo a tornar possível um questionamento novo e livre de preconceitos. Só posso empreender a tarefa da compreensão com a mente desembaraçada e livre (vácua et libera mente), ao passo que o conhecimento do homem requer sempre todo o saber possível sobre o homem em geral. (OC 10§495).

Metade ciência- metade arte: universal e particular. E, todavia, o singular, o único, tem primazia. Com esta percepção Maroni aponta duas categorias fundamentais da psicologia analítica: conhecimento e compreensão. A primeira diz respeito ao método científico que apreende o homem, em geral, de forma niveladora; a segunda, a arte terapêutica, que lida com o homem singular e acontecimentos irregulares que só podem ser apreendidos pela compreensão. É então neste movimento entre ciência/arte que, na psicologia analítica, o aspecto arte vida se sobrepõe ao ciência /intelecto.

Em Memórias Sonhos e Reflexões, Jung diz: “as psicoterapias são tão diversas quanto os indivíduos. Trato cada paciente tão individualmente quanto possível, pois a solução do problema é sempre pessoal (...) cada paciente exige o emprego de uma linguagem diferente”. Na medida em que cada vida individual possui características próprias, não generalizáveis, cada nova solução e adaptação devem exigir um método próprio, individual. Contrapondo-se e criticando a psicanálise freudiana, Jung diz que não se pode iniciar a análise partindo-se de uma determinada teoria que procura elucidar a essência da neurose em geral, mas a partir da relação pessoal entre paciente e analista.

A proposta inovadora da clinica junguiana é o acolhimento de novos sentidos que brotam do Desconhecido e o que dele brota não se enuncia, não se diz pela lei da causalidade. A causalidade é lei só para o conhecido! A Jung interessa o fenômeno psíquico tal como aparece em seu estado nascente, não interpretado ou teorizado. É neste vazio do estado nascente que a adaptação do paciente se esgarça e então é preciso uma nova solução: uma nova adaptação do paciente às novas condições de sua vida anímica.

A psicoterapia, tal como a arte, exige habilidades específicas do analista e estas, dificilmente poderão ser convertidas num saber teórico ou num método específico para formação de analistas. Vale lembrar a sempre presente afirmação de Jung: o psicoterapeuta é o seu próprio método, é o grande fator de cura. Deste modo, mais uma vez, estamos mais próximos da arte e bem distantes da ciência ,seus métodos e suas técnicas.

Enfatizo neste momento algumas questões: 1) do ponto de vista teórico, a psicologia analítica é metade ciência – metade arte, daí a importância do uso de modelos: científico e estético- artístico; 2) do ponto de vista da prática psicoterapêutica, a psicologia analítica é arte. Jung não se cansa de propor novas possibilidades para essa prática terapêutica que não é científica, por que não é representacional, por que não implica em um sujeito – o psicanalista – e em um objeto – o paciente. Por que consultório não é laboratório – a não ser, brincando com a questão, que seja um laboratório alquimista; depois do labor é preciso também uma oração!



Psicologia Analítica e Cultura

Alberto André Delpino de Mendonça

Instituto C.G. Jung Minas Gerais

É impossível compreendermos a contribuição cultural da psicologia analítica sem antes examinarmos a trajetória científica e humana do seu fundador, Carl Gustav Jung, ao longo de seus quase 86 anos de vida A psicologia analítica teve muitos colaboradores além de Jung e continua recebendo uma sólida contribuição científica de pesquisadores de todo o mundo. Seria inexeqüível tentar abordar ou citar num texto como este os nomes e contribuições de todos aqueles que ajudaram a construir ao lado do mestre de Küsnacht o edifício da psicologia analítica. Diante disso, restringir-me-ei a focalizar seu principal mentor ao longo de século XX.

Corre o último quarto do século XIX, naquela atmosfera própria de um mundo que fatalmente eclodiria na Grande Guerra de 1914-1918. Há quem diga que o século XIX ocidental só teria terminado historicamente após o tratado de Versalhes. Nesse clima de incertezas e de grandes ousadias nos vários campos do saber humano, Jung sedimenta as bases da sua formação e do seu pensamento através de filósofos como Pitágoras, Heráclito, Empédocles, Platão, Shopenhauer, Brentano, Hartmann, Nieztsche, Kant, dentre outros. E também, de cientistas, pesquisadores, poetas e artistas que iriam ajudá-lo a iniciar e mais tarde a construir, enriquecer e solidificar a sua obra.

Em 1895, Jung inicia seus estudos de medicina na Universidade de Basiléia, onde seu avô paterno fora reitor e, em 1900, ao término dessa etapa, resolve dedicar-se à psiquiatria. Este passo será fundamental em sua vida. Em 1902 torna-se o primeiro assistente do professor Eugen Breuler, na época um dos psiquiatras mais conceituados da Europa que em pouco tempo se destacará com a monografia sobre as esquizofrenias que o transforma no monstro sagrado da psiquiatria ocidental contemporânea.

Entre 1903-1905 Jung desenvolve suas pesquisas sobre associações e demonstra pela primeira vez, dentro de técnicas experimentais e de laboratório, a existência de uma atividade inconsciente no psiquismo humano. Durante o ano de 1906, o jovem livre-docente da Faculdade de Medicina da Universidade de Zurique, encontrando respaldo científico nos estudos de Freud às suas pesquisas clínicas e aos seus achados sobre associações, busca apoio do mestre de Viena. O primeiro encontro pessoal entre os dois ocorre em março de 1907.

Suas pesquisas sobre associações com a colaboração de Franz Riklin e os trabalhos clínicos sobre a psicogênese na esquizofrenia, os quais já haviam interessado a Freud, repercutem nos meios científicos e despertam a curiosidade de acadêmicos e estudiosos. Suas atividades se intensificam até 1912 quando amplia seu envolvimento com o movimento psicanalítico, incluindo neste período sua viagem aos EEUU com o mestre da psicanálise, em 1909. Nessa ocasião é convidado para conferências na Clark University de Worcester, Massachusets. Já considerado o príncipe herdeiro de Freud, no ano seguinte, torna-se presidente da recém-fundada Sociedade Internacional de Psicanálise.

Em pouco tempo o prestígio do jovem cientista suíço se propaga, não só na Europa como também nos EEUU. No mesmo ano da sua viagem à América, é obrigado a deixar a clínica do Burghölzi, o grande hospital em Zurique, por sobrecarga de trabalho. Além da clínica particular, passa a dedicar-se com afinco ao estudo e pesquisa da mitologia, das religiões e do folclore.

A publicação de Transformações e Símbolos da Libido enseja, particularmente pelo capítulo denominado O Sacrifício, o rompimento com Freud. A obra é uma espécie de pedra angular da psicologia analítica. O encontro inicial de Freud e Jung não resiste à prova do tempo e passados seis anos do casamento científico acontece o rompimento definitivo com evidente desvantagem para o então jovem cientista suíço, uma vez que passa por um período de isolamento e rejeição nos meios especializados, como ele próprio confessaria. A partir de então, Jung entra numa fase de introversão, denominada por ele de confronto com o inconsciente e que ensejará a constituição de parte importante do material para o seu Livro Vermelho.

Em 1919, Jung usa pela primeira vez o conceito de arquétipo. Nessa época, já fim da primeira Grande Guerra, Jung serve como capitão-médico nos campos de concentração ingleses. Finalmente, em 1920 inicia uma série de viagens pela África e ao continente americano que no seu conjunto só terminará em 1938, na Índia. Este afastamento do solo europeu e do seu próprio ambiente cultural constitui, dentre outros aspectos, uma tentativa de focalizar a partir de fora a avaliação de outros povos no tocante à cultura europeia e propiciar à sua condição de pesquisador um distanciamento crítico mais eficaz e mais isento de preconceitos.

Não terá sido por acaso que o chefe Pueblo “Lago das Montanhas”, finalmente, diz ao visitante: ...”Veja como os brancos têm um ar cruel. Têm lábios finos, nariz em ponta, os rostos sulcados de rugas e deformados. Os olhos têm uma expressão fixa, estão sempre buscando algo. O que procuram? Os brancos sempre desejam alguma coisa, estão sempre inquietos, e não conhecem repouso. Nós não sabemos o que eles querem. Não os compreendemos e achamos que são loucos”.

Com esses indígenas, Jung sedimenta a ideia de que toda cultura necessita de mitos que a estruturem e sustentem: os Pueblos se julgavam filhos do Sol e responsáveis pelo seu trajeto cotidiano. Sem eles tudo seriam trevas. Esta certeza conferia-lhes a dignidade que necessitavam para se manterem como um povo.

Na África, a viagem entre os Elgonís propicia ao pesquisador a experiência viva da hora do nascimento do Sol como equivalente ao culto egípcio a Osíris, onde este momento, o instante em que a luz se faz é Deus. Para eles tudo que se estende ao sol é bom. A noite, em contraste com o dia, é vista como “um novo mundo; o mundo obscuro, o mundo de Ayik, do mal, do perigo e do medo. É ainda nessa época, que Jung compreende que “... desde a origem, uma nostalgia de luz e um desejo inesgotável de sair das trevas primitivas habitam a alma. A nostalgia da luz é a nostalgia da consciência”.

Quanto à Índia, o aspecto central que sensibiliza o cientista, dada a abordagem distinta conferida ao tema pelos indianos e pelo cristianismo europeu, é a questão do bem e do mal. Evidentemente, que sendo a Índia um manancial riquíssimo da cultura humana e uma fonte contínua de novas respostas ao intelectualismo europeu, além da questão do bem e do mal, ela acena como uma nova possibilidade de união de opostos, como elemento complementar e compensador da cultura cristã européia. Uma vez convencido destes fatos, a busca de interlocução entre ocidente, Índia e oriente como um todo será uma constante na sua obra e durante toda sua vida participará ativamente de eventos com este fim. As conferências de Eranos são um testemunho disto. Jung participa delas de 1933 até 1951, dez anos antes da sua morte. Entre 1934 e 1939 realiza seus seminários em inglês sobre o Zaratustra de Nietzsche.

Mas é importante dar alguns passos atrás. Em 1922, um ano antes da morte de sua mãe e da palestra de Richard Wilhelm sobre o I Ching em Zurique, Jung adquire um terreno em Bollingen, no lago superior de Zurique, e com a ajuda inicial de dois mestres de obra italianos executa ao longo do tempo a construção da Torre. Em contraste com sua bela e acolhedora casa de Küsnacht, local destinado à família, aos amigos e à vida cotidiana, a nova construção se constitui em espaço de aprofundamento interior e recolhimento. A Torre manterá até o fim um aspecto que Jung jamais deixou de considerar essencial na caminhada humana: o da dimensão da busca das nossas raízes profundas e da dimensão do mistério.

Em 1928 Jung se encontra com sinólogo Richard Wilhelm e toma conhecimento do texto de O Segredo da Flor do Ouro. A partir de então, interrompe suas experiências iniciadas em 1913 e se aprofunda nos textos alquímicos, sobretudo, dos autores europeus.

Os títulos obtidos por Jung em vida na sua trajetória acadêmica e profissional foram muitos. Contudo, segundo confessou, o momento supremo da sua carreira acadêmica foi a sua nomeação para a cátedra de psicologia médica na Universidade da Basiléia em 1944, a mesma onde seu avô paterno havia sido reitor. Jung atribuiu inclusive a sua grave doença, havida no mesmo ano e posterior à sua nomeação, à imensa carga emocional que o fato representou para ele.

É a partir dos escritos e correspondências de Jung que nos deparamos com uma quantidade significativa de temas que não se prendem a questões específicas de psicologia, psicopatologia ou psiquiatria, dentre eles os de cunho religioso. O escritor aborda estes temas na condição de médico, pesquisador e psicólogo, procurando não se deixar contaminar pela questão religiosa ou teológica propriamente dita. Isto lhe valeu a animosidade e desconfiança de inúmeros teólogos e religiosos que não admitiam a abordagem psicológica das religiões ou não concordavam com seus achados, além do desprezo dos que o acusavam de místico e não científico. Contudo, estes ataques não abalam suas convicções e esses escritos e correspondências se manterão até o fim da sua vida ao lado de outros temas, sejam científicos, artísticos, pedagógicos, sociológicos, éticos.

Em 1948, é inaugurado o Instituto Carl Gustav Jung em Zurique, uma vez que, a essa altura, o número de adeptos e colaboradores da psicologia analítica já era considerável, tornando, assim, possível a criação de um centro de formação de profissionais especializados na área. O referido instituto torna-se, então, centro irradiador para a formação de analistas em outros países do mundo.

Em 1953, é iniciada a edição inglesa das obras completas de Jung (Collected Works, Bollingen Series, New York) e a partir da segunda metade do século XX, outros institutos e associações se organizam em vários países da Europa e fora dela. A International Association for Analytical Psychology (IAAP) é fundada em 1955 e torna-se a instituição credenciada para organizar e controlar, em nível ético, científico e profissional, os grupos e sociedades de analistas devidamente reconhecidos nos vários países e continentes, bem como para promover e divulgar a psicologia analítica em todo o mundo.

Com a morte de Carl Gustav Jung, em 6 de junho de 1961, na sua residência em Küsnacht, encerra-se a sua jornada terrena. Jung, desde o início de sua trajetória, reconhecia que na base de toda questão do psiquismo humano e da caminhada humana encontram-se as perguntas primordiais: o psiquismo busca um sentido, um fim? e, finalmente, a existência humana tem um sentido?

Para a primeira pergunta, responde-nos com o princípio de individuação. Para a segunda, replica que sua “raison d’être’ (dele, Jung) consistia no entendimento do ser indefinível que chamamos Deus”. Quanto aos acréscimos à cultura pela psicologia analítica, estes freqüentemente constituem novos paradigmas que também a transformam. Inconsciente coletivo, arquétipos, complexos, tipos psicológicos, introversão e extroversão, individuação, sincronicidade, são contribuições ao pensamento humano de valor inestimável. A abordagem de temas como símbolo, mito, folclore, religião, alquimia, libido, interpretações de sonhos, imaginação ativa, Eros e logos, masculino e feminino, as várias figuras arquetípicas, desenvolvimento da personalidade, esquizofrenia e outros distúrbios mentais, amor e casamento, fenômenos ocultos, UFO, arte e arte moderna, são questões amplamente abordadas pela psicologia analítica, bem como as questões e desafios da globalização e do movimento ecológico de alcance cultural inquestionável.

A psicologia analítica contou desde o início da sua formação com colaboradores cujo número, ao longo do tempo, foi se avolumando. As qualidades acadêmicas, científicas, culturais e humanas de muitos deles, por si só, seriam suficientes para enaltecer e autorizar qualquer grupo a que se filiassem. Contamos hoje com mais de meia centena de sociedades que se organizam por todo o mundo, incluindo Oriente, América do Norte, America do Sul, Austrália, África do Sul, Europa ocidental e Leste europeu. Ao lado destas sociedades, existem vários grupos em desenvolvimento em várias partes do planeta. A Associação Junguiana do Brasil encontra-se entre elas e é uma colaboradora e produtora de cultura eficaz e ativa, com amplo intercâmbio no plano nacional e internacional. Possui sete institutos distribuídos pelos estados do Rio Grande Sul, Paraná, São Paulo (Campinas e São Paulo), Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia, todos promovendo cultura.



Corpo e Psique: gerando um campo de intensidade

Elisabeth Bauch Zimmermann

Instituto Junguiano do Rio Grande do Sul

Sinopse: Para Jung, o ser humano precisa ser compreendido à luz da história e de sua inserção social. A diferenciação da psique coletiva criou um estado de separação entre as duas naturezas: a física e a psíquica. Como fazer para recriar a relação de unidade existente antes da ruptura que a consciência emergencial produziu? Para entrar em contato com o inconsciente é necessário objetivar seus conteúdos ou reconhece-los no corpo, ou seja, validar a experiência do corpo como manifestação exterior da vida do espírito. É necessário fazer uso da visão imaginativa e da relação com o somático, um processo em que as imagens compõem um todo complementar, como se fosse um modo de pensar mais antigo e, ao mesmo tempo, um pensamento novo, integrativo, não analítico e que não é o pensamento das teorias, dos conceitos e das interpretações. Essa maneira de conceber o trabalho psíquico gera um campo de intensidade, uma energia criativa que impulsiona o indivíduo em sua jornada de individuação.

Abstract: For Jung the human being must be comprehended under the light of the history of his social insertion. The psychic differentiation of collective psyche has criated a state of separation of both natures: the physic and the psychic. How can we recreate the relation of unity existent before the rupture which was produced by the emergent consciousness? In order to get in touch with the unconscious it is needed to objectify its contents or recognize them in the body, that is, to validate the experience of the body as an exterior manifestation of spiritual life. We need to use the imaginative view and the relation with the somatic, a process in which the images compound a complementary whole, as it would be an old way of thinking, and at the same time, a new integrative way, non analytic, which is not the thought of the theories, of the concepts and the interpretations. This way of conceiving the psychic work gives origin to a field of intensity, a creative energy which impulses the individual in his journey of individuation.

O ser humano para Jung precisa ser compreendido à luz da história e de sua inserção social. Não somos de hoje, somos de um longo tempo atrás, diz ele em uma entrevista em 1959. Por outro lado, afirma que a consciência individual é “um segmento arbitrário da psique coletiva” (Jung1928, p. 145). Diferenciar-nos dela significou um longo caminho para o homem. O desenvolvimento da consciência individual se deu a partir da diferenciação da psique coletiva que abrange tanto uma consciência coletiva, como um inconsciente coletivo. A psique coletiva, relacionada aos arquétipos e aos instintos se mantém em sua intensa dinâmica como um pano de fundo em todos os nossos movimentos enquanto a consciência se relaciona com o processo da civilização e da cultura.

Nos tempos em que a consciência coletiva domina surge o risco, como atualmente acontece em diversas culturas, da massificação e da perda do livre arbítrio. Por outro lado, se a consciência é inundada pelo inconsciente coletivo perdemos nosso ponto de vista consciente. O que pode ser concluído é que existe a real necessidade de uma diferenciação dos dois aspectos coletivos da psique, o que Jung denominou de um trabalho contra a natureza. Se a cultura se dá a partir de um esforço contra a natureza, a negação pura e simples da cultura ao invés de nos devolver a uma natureza íntegra forçosamente nos legará uma natureza mutilada, uma vez que é impossível reverter o processo histórico e retornar a uma origem além e aquém da história. Natureza e cultura encontram-se de tal modo amalgamadas na experiência humana que não são mais separáveis, nem descartáveis em nenhuma de suas polaridades. Para um encontro saudável com a natureza humana, é necessária uma recriação sociocultural do homem que concomitantemente recrie a relação com a natureza. (Freitas, MG, 1991, p.138).

Como fazer para recriar a relação de unidade existente antes da ruptura que a consciência emergencial produziu? Como se manter no processo de diferenciação sem perder o contato consigo mesmo, nem com a natureza de onde viemos? Os males de nossa época podem ser transformados se entrarmos em contato com os processos vivos em nós e percebermos sua reação, se permitirmos que uma atitude simbolizadora, que restabelece a correlação entre consciência e inconsciente coletivo, se manifeste.

Jung diz em seu texto O Problema Espiritual do Homem Moderno (1928) que a época moderna, que se tornou mais presente depois da primeira grande guerra mundial, em que foram usadas pela primeira vez armas venenosas e de grande poder destrutivo e se firmaram tratados de paz suspeitos, fez o homem sofrer um importante choque psicológico que lhe trouxe uma profunda incerteza, mas que também fortaleceu a procura pelo espírito interior, a fascinação pelo conhecimento da psique. Uma vez que os processos do inconsciente não são diretamente observáveis, a consciência individual mais e mais passou a incluir em seu trabalho de diferenciação a descoberta do corpo como busca de si mesmo, vivenciando-o como sujeito e não como objeto que realiza ações utilitárias. Para entrar em contato com o inconsciente foi necessário objetivar seus conteúdos ou reconhece-los no corpo, ou seja, validar a experiência do corpo como manifestação exterior da vida do espírito.

O movimento exterior de trabalhar o corpo, seja porque o consumismo reinante induz à preocupação com a saúde e o conforto, seja porque uma vontade de libertação se encaminhou para a prática de exercícios aeróbicos, pode ser visto como uma das tentativas de tentar superar a tensão do homem contemporâneo. Além disso, nas camadas sociais que possuem recursos para atender seus desejos, surgiu a tendência de querer dominar o próprio corpo, possivelmente como compensação para a grande impotência que sentimos diante dos fatos consternadores apresentados pela mídia em nosso cotidiano. No entanto, não é apenas descarregando energias e treinando músculos que se dissolve a pressão interior. Os sentimentos precisam achar sua expressão, e o impulso inconsciente, que faz aflorar determinados conteúdos na consciência, precisa ser integrado, o que supõe um trabalho psíquico que gera um campo de intensidade, energia criativa que impulsiona o indivíduo em sua jornada de individuação. Apesar dos golpes que a humanidade vem sofrendo, ou justamente por isso, houve uma expansão do ideal de conhecimento da natureza humana, incluindo então o corpo como meio de conscientização. A realidade corporal passou a ter importância na intenção de superar a antiga divisão que existiu por séculos entre mente e matéria e ainda persiste em nossos dias. Jung diz a esse respeito: “Mas se podemos nos reconciliar com a verdade misteriosa de que o espírito é a vida do corpo visto de dentro e o corpo é a manifestação externa da vida do espírito – os dois sendo realmente um só – então podemos entender porque o esforço para transcender o atual nível de consciência através da aceitação do inconsciente deve dar ao corpo seu valor, e porque o conhecimento do corpo não pode aceitar uma filosofia que o nega em nome do espírito” (idem, par. 195). Afirma que a partir desta percepção, em que as dimensões do externo e do interno se equivalem, formou-se na psique do homem moderno um estado de tensão interna que causa apreensão e desperta defesas. Não poder mais colocar no corpo aquilo que deve ser temido e mesmo desprezado, e sim assumir que sua realidade nos diz respeito para que possamos nos sentir inteiros abre uma perspectiva inusitada para muitos. Jung nos conta que a psique não foi sempre encontrada no interior. Houve épocas, em civilizações antigas, em que ela era encontrada fora porque eram épocas sem psicologia. Enquanto existiu uma forma exterior, ideal ou religião, em que as esperanças e aspirações da alma puderam ser adequadamente expressas, a psique ficou voltada para o exterior, não havendo problemas psíquicos assim como não tendo relevância a relação com o inconsciente. (ibidem, par158). Mas depois veio a necessidade de ir adiante e prestar atenção em sua psique. O crescimento rápido do interesse, durante as últimas décadas, no mundo todo, pelo processo interior, pelos fenômenos psíquicos de modo geral – astrologia, espiritualismo, teosofia, parapsicologia, terapias de regressão, psicoterapias e análises individuais e de grupo - nos diz que o homem moderno procura dentro de si respostas que o mundo material, apesar de tão desenvolvido, não consegue lhe dar. A intensificação desta busca se assemelha à corrente do gnosticismo, que existiu predominantemente nos primeiros séculos após Cristo, mas que ainda se manifesta como atitude nos dias de hoje. Jung estudou esse movimento, assim como as diversas mitologias e os textos alquímicos para encontrar modelos que dessem uma base de sustentação à suas hipóteses sobre a estrutura e a dinâmica da psique humana. Um dos aspectos que lhe chamou a atenção nos sistemas gnósticos é que, ao contrário do que ocorria na igreja cristã oficial, estes se baseavam nas manifestações do inconsciente e seus ensinamentos morais penetravam o lado escuro da vida. O lado escuro para o homem moderno significou voltar-se para a realidade do inconsciente e do corpo.

Desde a época das primeiras grandes viagens das descobertas, manifestou-se no homem uma tendência para projetar no exterior o bem a ser alcançado, transformando a natureza e os indivíduos em objetos a serem possuídos. Até hoje o desejo sem limites de intervir na vida e nos problemas de outros povos, com o objetivo de obter poder e ganhos materiais ilícitos, não arrefeceu, só foi se tornando mais sofisticado. Possivelmente, para contrapor algo a essa paixão de tornar os homens presas de si mesmos, surgiram novas formas espirituais substituindo as religiões existentes, desgastadas pelo esvaziamento da fé, o que aconteceu principalmente durante a história da religiosidade do ocidente. A falta de respeito entre os homens, mencionada acima, pode ser vista como o outro lado da falta de contato consigo mesmo, uma vez que Jung nos fala das regularidades encontradas por ele nos comportamentos e percepções dos homens de modo geral.

O rápido aumento da população mundial, os avanços tecnológicos, a busca do conforto após os sofrimentos das duas grandes guerras mundiais tiveram como reação, num primeiro momento, um voltar-se para o mundo exterior e para as conquistas que ele representava, e ainda representa, para uma grande maioria da humanidade. Porém o homem que despertou para a necessidade do cumprimento profundo e pessoal de um sentido em sua vida tornou-se estranho à massa que vive presa aos laços conservadores e do bem estar material. Ele chegou ao limiar do mundo e está diante do Nada do qual, numa visão otimista, poderá crescer o todo. (ibidem, par 150/151)

Nesse contexto se inscreve a importância do que Jung descreveu como objetivação dos conteúdos psíquicos inconscientes. Ele enfatizou a importância das abordagens criativas como a dança, o desenho, o Sandplay, a modelagem, a música para dar expressão às imagens interiores e possibilitar uma outra forma de diálogo com o inconsciente. Quando ele se aventurou, de maneira pioneira, em sua viagem interior e se deixou “cair no inconsciente”, encontrando paisagens internas profundas, dando forma a elas em construções, esculturas, pinturas e textos complexos, legitimou todo um trabalho de pesquisa e tratamento que viria a se desenvolver nas próximas décadas. O esforço para transcender o presente nível de consciência inclui a tendência em nossos dias de dar ao corpo e ao mundo físico o seu crédito e livrá-lo de uma sujeição unilateral ao espírito.

Um dos aspectos mais significativos da percepção de Jung de que mente e corpo, (mundo psíquico e mundo físico) não são realidades separadas, se refere ao conceito desenvolvido por ele da sincronicidade, isto é, da existência de uma relação significativa entre dois eventos, físicos e psíquicos, sem aparente conexão causal, fazendo surgir uma coincidência significativa. Numa das primeiras definições dos fenômenos sincronísticos Jung os descreve como coisas que acontecem ao mesmo tempo como uma expressão do mesmo conteúdo (Jung, 1984) Nesta época, Jung fez o seguinte comentário baseado na teoria da relatividade de Einstein: mas se espaço e tempo são apenas aparentementente propriedades dos corpos em movimento e são criados pelas necessidades intelectuais do observador, então sua relativização a partir das condições psíquicas não é mais uma questão que nos deva surpreender e sim mostrar-nos que ela foi trazida para dentro dos limites da possibilidade. (Jung in Cambray, 2009, p.16).

Existem inúmeros exemplos de fenômenos sincronísticos: podemos citar, como tendo um grande potencial de desenvolvimento, tanto na pesquisa, como na clínica o campo da medicina psicossomática que observou a relação entre doenças orgânicas e imagens simbólicas que emergem espontaneamente antes e durante o tratamento. Seria a ocorrência simultânea de dois fenômenos diferentes em sua natureza, abrigando um mesmo sentido. Em seus seminários sobre Nietsche, Jung diz: Somos dotados de uma conexão consciente-inconsciente que leva, de um lado, a um domínio puramente psíquico ou espiritual e, de outro, ao corpo e à matéria. Quando nos dirigimos para o domínio do espírito, o inconsciente torna-se inconsciente psíquico e, quando nos dirigimos para o corpo e para a matéria, ele se torna inconsciente somático (Jung in Schwartz-Salant, 1988).

Para nos aproximarmos de um entendimento desses fenômenos pode ser de ajuda ouvir o que Cambray refere: os arquétipos do inconsciente coletivo certamente são marcas essenciais no modelo junguiano da psique. Formas virtuais, vazias em si mesmas, elas são concebidas como estruturantes de toda a vida psíquica; quando consteladas, através da combinação entre o ambiente e dados psíquicos, elas tendem a se manifestar em um imaginário arquetípico. Os arquétipos são entidades psicossomáticas ligando o corpo e a mente. Vistas em conjunto, formam uma rede policêntrica intensamente interconectada. (Cambray, 2009).

Então, o que parece ser fundamental nessa formulação da equivalência de corpo e espírito é reconhecer a dimensão arquetípica dessa relação. Ao estudar os textos dos alquimistas Jung concluiu que, a partir dos experimentos com substâncias físicas, se afirmava a necessidade de consolidar uma percepção deste processo num nível psíquico antes que a dimensão somática pudesse ser alcançada e transformada. Esta observação exclui uma concepção muito literal e concreta do corpo e da matéria em Jung.

Se a consolidação da experiência psíquica, por um lado, é um pressuposto para que suas descobertas possam ser atualizadas na realidade física, por outro, Schwarz-Salant nos diz que: O inconsciente somático representa o inconsciente, tal como o percebe o corpo... e essa é a única forma pela qual o inconsciente pode ser experimentado. (1988, p.162)

O que parece ser a grande contribuição de Jung para os nossos tempos, no que se refere à relação entre corpo e psique, é que ele nos ensina a lidar com a complementaridade inerente a ela. As informações que obtemos do inconsciente somático são reveladas através da imaginação, de um processo ligado ao sentimento e à sensação – uma sensação em grande parte introvertida – em que se apresenta uma configuração que quer se completar expressivamente. No meu trabalho como analista e pedagoga de dança notei, a partir de mim mesma, que o movimento espontâneo, relacionado com uma camada mais profunda da personalidade fazia surgir sempre novos impulsos, que desenvolviam a improvisação como um fio condutor. Era como se uma Gestalt interna estivesse presente, a qual, num determinado momento, era cumprida e deixava uma sensação de realização. Esse processo em que as imagens compõem um todo complementar é como se fosse um modo de pensar mais antigo e, ao mesmo tempo, um pensamento novo, integrativo, não analítico e que não é o pensamento das teorias, dos conceitos e das interpretações. Quando estamos num extremo, não podemos estar no outro, mas podemos depois reconhecer as suas equivalências e refletir sobre eles e sobre o ensinamento que deles recebemos. Parece que não é mais possível trabalhar a complexidade da realidade psíquica do homem atual a partir de um só método. Se não fizermos uso da visão imaginativa e da relação com o somático e ficarmos, em vez disso, dependendo exclusivamente do conhecimento da razão, poderemos ficar expostos a dissociações doentias, a sintomas psicossomáticos, a fobias e depressões. Trata-se de uma visão mais lunar do que solar, uma visão que se fundamenta na imaginação, que “é real”... e experimentada no próprio corpo. Ela corresponde à distinção feita pelos alquimistas entre a imaginação “verdadeira” e a imaginação “fantástica” (distinção feita por Jung em Psicologia e Alquimia, par. 369)... Na alquimia, imaginatio, ou ação de imaginar, configurava-se como uma das principais chaves da complementação bem sucedia da opus. Era um processo “semi-espiritual”, “semifísico” (in Jung, Psicologia e Alquimia, par. 394) e tão vital quanto o é hoje, tendo em vista que sempre o encontramos quando quer que estabeleçamos um vínculo entre a nossa psique e a psique de outra pessoa e o inconsciente for altamente constelado”. (Schwartz-Salant, 1988, p.165/166)

Tais momentos de vínculo e unidade sempre podem ser observados em comunidades primitivas, durante as danças rituais. No homem moderno tornam-se cada vez mais raros. Certamente podem acontecer na integração com a natureza, na vivência do espiritual, nas criações artísticas. Também no trabalho da análise, em que se trata de estabelecer o vínculo do eu consciente com a dimensão psíquica inconsciente, transpondo as percepções para a dimensão da existência física no mundo, no sentido da Conseqüência Ética que Jung cita como um dos passos da Imaginação Ativa.

Se não fosse por este último aspecto, quem melhor representaria esse vínculo seria o artista e o praticante de rituais religiosos, além, é claro, do poeta, que nos transmite os relatos mitológicos e recria os contos de fada. Nesses contextos se atualiza, em qualquer tempo e lugar, a ancestral predisposição herdada de produzir imagens simbólicas e, muitas vezes arcaicas, soterradas há muito tempo e, no entanto, sempre vivas e necessárias para o desenvolvimento da vida no caminho da individuação.

O artista vive esse processo sem necessariamente ter consciência da integração de seus conteúdos interiores. Ele “sofre” a tensão que antecede a criação de uma obra como algo inevitável, sem poder, como muitos de nós, se furtar a esse impulso que nasce do inconsciente. Para Jung o processo criativo do artista é algo vivo que se instala na psique humana e que, em muitos casos expressa um estado de autonomia, fora da hierarquia da consciência.

A biografia de grandes artistas deixa isso bastante claro: a urgência criativa freqüentemente é tão imperativa que atropela a humanidade e usa todo seu potencial a serviço da obra nascida como uma força da natureza que quer alcançar seu objetivo. O impulso criativo no artista é como se fosse uma árvore na terra que dela tira seu alimento para crescer (em Jung, ( ) par. XV).

Em nós, que não temos a vocação dos artistas, nem da profissão religiosa e também não somos poetas, a intensidade da expressão do imaginário interior é menor, mesmo porque nossa linguagem tomou outros rumos no correr de nosso desenvolvimento. Em épocas antigas, há milhares de anos, a linguagem corrente entre nossos ancestrais era feita de imagens e projeções sobre os fenômenos da natureza exterior. As pinturas rupestres, os rituais religiosos, os mitos de todos os tempos revelam a fantasia criadora dos homens e a importância que essa função simbólica tinha para eles. O homem de nossos dias, para alcançar a cura, o restabelecimento da harmonia interior, parece ter a necessidade de voltar a essa linguagem que permite a manifestação em cor, forma e movimento das emoções, dos sentimentos, da comoção em relação à vida.

Citando Verena Kast (1997, págs.23-24 e 37): “Simbolizar significa descobrir o sentido oculto na situação concreta... Projetamos nosso inconsciente sobre a realidade de superfície. No entanto, não podemos projetar um tema qualquer, mas apenas temas – no tocante ao símbolo – que tenham conexão interna com nossa existência...”.

Jolande Jacobi, que trabalhou longos anos como analista utilizando-se de recursos expressivos, afirma que nossa época poderia representar o fim de um ciclo em que a consciência individual lentamente se desprendeu do cosmos externo, tantas vezes representado nos relatos mitológicos na forma de deuses e heróis, e, também da convivência coletiva e inconsciente, formando uma personalidade cada vez mais individual. Agora seria o momento de superar os limites desta existência pessoal e voltar às raízes do inconsciente coletivo, no cosmos interior que aparece nas imagens pintadas e desenhadas, podendo, então, voltar à experiência da unidade integrada na consciência. Sabemos que durante um processo analítico, em que passamos pelas fases de confronto com os mundos exteriores e interiores, o sentido de vida de cada um de nós se revela nessa integração consciente.

Barbara Hannah (1985), que trabalhou com Jung usando o método da Imaginação Ativa, nos avisa de que não se trata de evocar o antigo pensamento mágico, de utilizar o conhecimento do inconsciente para influenciar nossa vida pessoal e a de outras pessoas em nosso próprio benefício. O modo legítimo de usar este método é pesquisar honestamente o desconhecido para alcançarmos nossa inteireza e a verdade de nosso ser.

A busca da união da dimensão interior e exterior no indivíduo pode ter como um resultado a espontaneidade total e o domínio completo da forma: na pintura Zen surge o momento em que cada traço é exato. O impulso criativo, vivenciado como luz flamejante, vindo do centro, realiza essa integração. Esta é uma das possibilidades de obter uma experiência interior através do movimento físico. Na nossa cultura, ela é privilégio de poucos. A outra possibilidade é a construção lenta e consciente de uma concentração que detecta cada alteração, por mínima que seja, nos movimentos exteriores e que aprende a relacioná-la com a sintonização interior, tornando reais os impulsos advindos das dimensões do nosso inconsciente para a forma exterior do nosso corpo.

Porém, o campo de intensidade criado durante o processo de individuação, e que subentende um trabalho psíquico de integração entre as dimensões pessoal e coletiva, entre a consciência e o inconsciente, entre o físico e o psíquico encontra-se despolarizado e demanda a busca urgente de uma transformação individual para que haja a transformação cultural e social necessária. É nesse dilema do homem atual que se insere a contribuição do legado de Jung para a cultura em suas mais variadas expressões e na complexidade de seus significados.

Elisabeth Bauch Zimmermann - zimmandrade@terra.com.br
Membro fundador da AJB
Formada pelo Instituto Jung de Zurique
Fundadora do Instituto de Psicologia Analítica de Campinas - IPAC-AJB
Ex-presidente da AJB

Referências

Arendt, H. (1992). Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva

Benjamin, W. (1993). Sobre o conceito de história em Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense.

Cambray, J. (2009) Synchronicity – <>Nature and Psyche in an interconnected Universe. Texas: A&M University Press

Hannah, Barbara (1985).Begegnungen mit der Seele. Kösel Verlag, Munique

Freitas, M. G. (1991). Taipas e toupeiras. Porto Alegre: Fonte Phi

Jung, C. G. (2000). Os Arquétipos do Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes

--------------(1961). Memórias, sonhos, reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

--------- ----(1981). Psicologia do inconsciente. Petrópolis: Vozes

--------------(1981). O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes

--------------(1984) A dinâmica do inconscient. Petrópolis: Vozes

--------------(1986). Símbolos da transformação. Petrópolis: Vozes

--------------(1993) Civilização em transição. Petrópolis: Vozes

--------------(2000) A vida simbólica. Petrópolis: Vozes

--------------(1991) O Espírito na Arte e na Ciência. Petrópolis: Vozes.

--------------(1984) Dream Analysis, W. Macguire: Princeton University Press

Kast, Verena (1997) A Dinâmica dos Símbolos. São Paulo: Loyola

Mindell, Arnold (1989) O Corpo Onírico. São Paulo: Summus editorial

Schwartz-Salant, Nathan. (1988) Narcisismo e Transformação de Caráter.São Paulo: Cultrix



TRIBUTO AO ANALISTA

Maria de Lourdes Bairão Sanchez

Instituto Junguiano do Paraná

A morte de Jung aconteceu no início de uma das grandes revoluções culturais que ocorreram no mundo ocidental.

Os chamados Anos 60 foram caracterizados por um movimento iconoclasta em direção a fatos, pessoas e instituições que indicassem permanência: uma mudança de época germinando e revelando uma mudança maior ainda que culminou com o início do Terceiro Milênio.

A consciência da transitoriedade esparrama-se pela cultura ocidental tendo como contribuição o desvendamento da Alquimia por Jung: um resgate de uma visão de mundo, anterior ao Iluminismo, anterior à ruptura entre os campos do saber.

A metáfora alquímica leva o analista para uma compreensão dinâmica deste homem que muito consome, que deseja todo tempo experimentar uma grande paixão, conseguir boa saúde contínua, sem ser impedido de viver uma vida nômade, tanto presencial quanto virtualmente (facebook, youtube, emails, twitter). Este homem que consome muito mais informação do que pode digerir: os fenômenos midiáticos são ao mesmo tempo propulsores das transformações e também causam muita ansiedade e frustração, o que dificulta o encontro do homem com seu eu mais profundo.

A plasticidade da proposta deste grande analista, que iniciou sua prática ainda no Século XIX, é tal que suporta mesmo este homem pós moderno, mais robot animado do que um sujeito humano, como denominou Wright Mills . Deste homem ao mesmo tempo tão egóico e tão antenado para o mundo que está aí e, que apesar disto tudo, continua procurando algo maior do que as meras aparências.

No livro vermelho em diálogo com o espírito das profundezas, Jung se entrega à possibilidade de se envolver com o pequeno, das coisas mais simples para encontrar o sentido da própria vida: “ Mas o pequeno, o estreito e o cotidiano não é nenhuma tolice e sim uma das duas essências da divindade.” , o encontro com o maior.

Esta diminuição de foco, este estreitar a perspectiva é uma das propostas da análise.

A AJB, formadora de analistas, valoriza sobremaneira a contribuição de Jung analista, aqui homenageado.

Importante lembrar que depois de deixar a vida acadêmica e o Hospital de Burgölzli Jung trabalhou e fez suas pesquisas em direção ao conhecimento da alma em seu consultório de Küsnacht e na casa da torre em Böllingen. Aconteceram também viagens pontuais para busca de confirmação de suas hipóteses clínicas e teóricas sobre a Alma humana e a transposição para a Anima Mundi.

Em 1921 ( Vol. XVI/2 , §280 e seguintes ) Jung questiona o fato de muitos pacientes buscarem apenas no passado, educação errada ou alguma predisposição dos pais, a razão de seus traumas e angústias, esquecendo o valor do processo de análise para também descobrir-se e se responsabilizar por seu processo de vida . Assinala o valor da relação analítica para o encontro com o eu profundo.

Enquanto a visão psicanalítica da época buscava dar conta dos conteúdos psíquicos reprimidos evidenciados no processo de análise, Jung propõe uma teoria da personalidade centrada na dissociação da psique. A psique dissociada, não diferenciada, urobórica, é uma idiossincrasia do humano e, portanto, de caráter arquetípico. A dissociação da psique é um constructo baseado no pressuposto da psique coletiva que deve ser humanizada para o aparecimento do indivíduo. A psique coletiva humaniza-se como uma conseqüência do aparecimento de complexos autônomos, amoitados em algum canto da psique. Tais complexos são acionados por experiências emocionais de grande energia e se manifestam independentemente da vontade.

Impõem-se à consciência com uma força tirânica contrária à consciência (vol XVI/2- § 267), e por ser contrária traz à consciência novos conteúdos jamais imaginados pelo analisando.

Em um de seus mais relevantes volumes , Psicologia da Transferência, uma abordagem alquímica da possibilidade de união dos opostos, baseada nas figuras alquímicas do Rosarium Philosophorum, Jung associa o processo analítico, à metáfora alquímica explicada pelo mistério profundo da ligação entre os elementos químicos, tanto quanto a coniunctio nas relações pessoais.

Durante o processo analítico, momento de exílio e intimidade, constrói-se um campo comum entre paciente e analista que gera uma diminuição da energia consciente. Então, “o inconsciente ativado apresenta-se como uma barafunda de opostos desencadeados e exige que se tente reconciliá-los” ( Vol XVI/2 §375 ) A psique dissociada, sem contornos necessita in-dividuar-se tornar-se única, encaminhando-se para o processo de individuação que vai acontecendo ( sempre como um gerúndio ), permitindo o aparecimento de aspectos desconhecidos pela consciência que vêm à tona e se conectam com o eu consciente. Neste processo os conteúdos projetados, na educação, nas figuras parentais ou no seu amigo mais próximo vão sendo reconhecidos como pertencentes ao eu e a relação eu/tu passa por um processo de purificação e de separação, para poder reunir-se novamente.

Grande paradoxo: o ego, o maior dos complexos autônomos, senhor de uma casa que não lhe pertence, é ao mesmo tempo, o único instrumento que permite a ampliação da consciência, a partir de pequenas aproximações das dissociações. Neste sentido a integração dos conteúdos projetados será sempre um embate com o eu, que se esmaece, diante da psique maior: um opus contra naturam.

Este eu que permite a integração dos conteúdos projetados remete á nova personalidade que é ao mesmo tempo consciente e inconsciente ,”o si-mesmo que é eu e não-eu, subjetivo e objetivo, individual e coletivo é símbolo unificador”Psicologia da Transferência §474 e por ser paradoxal só pode ser expresso através de figuras simbólicas.

No encontro com o lado desconhecido da psique, a sombra, o eu diminui este estado de dualidade e cisão, e se reestrutura em uma unidade, que não exclui os conflitos. Importante lembrar a idéia de conflito presente na unidade, uma unidade possível e não idealizada. A possibilidade de união dos opostos permite a compreensão mais profunda da existência.

Estas pequenas unidades continuam contendo em si o conflito e são intermediadas pelo princípio da Sincronicidade - que significa a simultaneidade de um estado psíquico com acontecimentos paralelos que se tornam significativos §849 e 850 –vol VIII/3. Os movimentos de concomitância em torno de um todo maior, de uma aproximação do self constituem o que Jung chama de opus psychologicum, ou seja, o desenvolvimento da consciência.

A análise é um tempo de exílio: a portas fechadas onde o terceiro entra apenas como a constituição do campo, é um momento de ruptura com toda a informação de fora, onde cada elemento entra subjetivado.

Apenas neste refúgio em que o que acontece fora do processo vem apenas como uma representação ocorre a possibilidade de ligamentum propiciando a transformação gerada pela ampliação da consciência.



Morte-vida de um Sábio

Glauco Ulson

Instituto Junguiano de São Paulo

Neste ano de 2011 estamos comemorando cinqüenta anos da morte de C. G. Jung. Meio século nos parece uma data significativa, posto que o passar do tempo faz naturalmente certas correções de avaliação e possibilita uma melhor reflexão a respeito do quanto a obra de um autor se revela como uma expressão de um dado local ou de um momento histórico, ou se caminha para a sua perenidade .

Muitas obras, tanto no campo das ciências , das artes ou das religiões gozaram de um grande prestígio num dado momento histórico, para logo a seguir, perderem sua importância e desaparecerem nas brumas do passado. Veremos que este não é o caso, pelo menos até agora, do que ocorreu com o legado de Jung. À medida que o tempo passa suas idéias se confirmam, seu reconhecimento se amplia, suas obras se difundem cada vez mais. Este fato pode ser constatado pelo número crescente de candidatos à formação a analistas nos Institutos de formação, pela proliferação de Sociedades de Psicologia Analítica em todos os continentes, por publicações, citações, trabalhos que se utilizam de seus conceitos. Também percebemos sua presença na mídia, nas livrarias, nas bibliotecas.

Jung escreveu seus primeiros trabalhos na virada do século XIX para o século XX e publicou, ininterruptamente, por mais de sessenta anos. Passados mais de cem anos de seus primeiros escritos, poderíamos dizer que, em grande parte, permanecem atuais como Psicologia. Amadureceu com o passar dos anos, ampliou seu campo de interesses, aprofundou seus conceitos, multiplicou suas ferramentas para abordar a Psique, porém, do princípio ao fim, sua coerência aos princípios éticos e espirituais, e sua qualidade, permanecem as mesmas. Viveu intensamente até os últimos de seus dias, e, com uma lucidez impressionante, deixou esta vida e uma grande obra. Tanto sua vida como sua obra podem ser vistas como um Opus Alchymicum. O que mais nos impressiona em seus escritos, são sua profundidade e abrangência. Busca sempre o universal e o eterno nos fenômenos, partindo sempre do existencial. Tudo o que lhe parece ser expressão da Psique, seja do consciente, seja do inconsciente, faz parte do objeto de seus estudos. Busca os pontos de interseção entre Medicina, Psicologia, Antropologia, Mitologia, Filosofia, Religião…

Os conceitos por ele criados de Ego, Self, Complexos, Arquétipos, Inconsciente Pessoal e Coletivo, Individuação, Sincronicidade e tantos outros, não só fazem parte da linguagem corrente da Psicologia, bem como da nossa conversa do dia-a-dia. O estudo da nossa psique exige, o tempo todo, que reconheçamos o que temos em comum a todos os seres humanos, e que somos, também um ser único, um indivíduo.

Grande parte de sua obra está baseada em suas próprias experiências com seu mundo interno. Explorando seu mundo interior foi reconhecendo conteúdos que pertenciam à sua história de vida, e outros que faziam parte de um estrato coletivo, comum à toda a humanidade. Trabalhando com pacientes, principalmente psicóticos, confirmou com um vasto material empírico, tanto proveniente de sua clínica, como de material simbólico produzido pela cultura: Mitos, Religiões, Contos de Fadas… a existência deste estrato da psique transpessoal que denominou de Inconsciente Coletivo. A exploração deste novo e profundo território da psique produziu uma verdadeira metamorfose em sua psique, resultando numa ruptura com a visão racionalista, materialista egocêntrica de sua época. Hoje diríamos que mudou de paradigma. Juntamente com tantos outros expoentes de vários campos das ciências e da cultura, trabalhou para transformar uma visão parcial e estreita do ser humano. Inúmeros preconceitos e dogmas foram abalados, e outros, tidos como ultrapassados, foram repensados.

Suas vivências ao entrar em contato com a Psique Coletiva resultaram numa enorme abertura para compreender a Psicologia Oriental, bem como a Mística, a Alquimia, a Psicologia dos Povos Arcaicos, etc.

Uma de suas contribuições mais importantes foi a de Self, ou o Si-mesmo. Demonstrou, fundamentado num enorme material empírico, de forma convincente, que nossa psique inconsciente não é um acervo de material reprimido que já fez parte da consciência, ou de impulsos aleatórios condicionados pela educação e pela cultura. Este centro que organiza nossa vida consciente e inconsciente busca uma realização da personalidade como um todo. Assim como nosso corpo, também nossa psique, contém um sem número de mecanismos regulatórios e compensatórios autônomos e independentes do nosso ego. Este arquétipo central coincide com a idéia de Imago Dei. Assim, todos nós possuímos um centro divino interior que é passível de ser conscientizado, ao menos em parte.

Simultaneamente às suas descobertas no campo da Psicologia observamos idéias de outros autores contemporâneos que apontam para a mesma direção. No campo da Física, (com as mudanças provocadas pela Física Quântica, Lei da Relatividade e o próprio conceito de matéria). Na Filosofia com a reabilitação da Metafísica, na Teologia com o ressurgir da Mística… e, nas Ciências de uma forma geral, a conscientização da impossibilidade de se separar totalmente o sujeito do objeto observado. A busca da eliminação do autoritarismo científico, político, econômico, religioso, bem como de todo tipo de idolatria e de identificação com uma visão unilateral e parcial da realidade em detrimento de outras dimensões fundamentais e constitutivas do ser humano, fazem parte do projeto junguiano. À medida que nos parece mais próxima a realização das necessidades básicas materiais e econômicas da humanidade, percebemos que os maiores desafios a serem enfrentados são de ordem espiritual e psicológica. Neste momento histórico que atravessamos, são muitos os indivíduos que se encontram diante de uma perda de referência psicológica e espiritual e a quem a Psicologia junguiana pode dar uma direção e um sentido. Jung, como pioneiro, iniciou um trabalho que outros que o sucederam aprofundaram e ampliaram . A assimilação destes conhecimentos poderá trazer um maior nível de consciência para o indivíduo e para o coletivo.

Por outro lado, o contato com esta dimensão da realidade, ou seja, o lado transcendente da psique, poderá provocar um fenômeno que Jung denominou de inflação do ego, a Hybris dos antigos. Isto causará um transtorno psíquico resultando numa idolatria do indivíduo (personalidades ególatras, tão comuns hoje em dia) ou transformar, através da projeção, outras pessoas em ídolos. Neste processo o próprio Jung pode se tornar um ídolo. Neste contexto, se encontrarem Jung matem-no - provérbio Zen.



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