Associação Junguiana do Brasil 25 Anos

Departamento de psicologia analítica e alma brasileira

Coordenador: Humbertho Oliveira (humbertho@alternex.com.br)

- Membro Analista Didata da AJB/IAAP - Rio de Janeiro (IJRJ)
- Editor da "Coleção Alma Brasileira", da Bapera & Mauad Editoras;
- Integrante do "Núcleo de Cultura Popular Céu na Terra";
- Organizador dos livros "Mitos, Folias e Vivências" e "Corpo Expressivo e Construção de Sentidos";
- Criador da "Oficina de Conhecimentos - Núcleo de Pesquisa sobre Vivências Míticas".

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[O Estudo da] “ALMA BRASILEIRA” representa um projeto arrojado. Arrojado porque a “Alma Brasileira” comparece como extremamente complexa e ainda em fase de nascimento e autoconstituição. Diversa é a composição étnica, diferentes são as regiões geográficas do país e vigora um rico sincretismo em curso que, seguramente, vai moldar toda a cultura brasileira futura. É o que faz o Brasil complexo e desafiador. Atingido certo grau de complexidade, faz-se mister a presença de um pensamento que procura discernir-lhe o sentido e apontar traços de uma identidade ainda em formação. Uma nação revela já maturidade quando começa a pensar a si mesma com um olhar próprio, mesmo quando se serve de um arsenal teórico vindo de fora mas filtrado pela nossa singularidade como povo. [A investigação da “ALMA BRASILEIRA”] se mostra promissora e ajudará o Brasil a entender melhor a si mesmo, a descobrir dimensões presentes mas ainda ocultas à consciência coletiva, e revelará que contribuição generosa poderá dar para o devir de uma humanidade planetizada que está se impondo como nova fase da Terra e da Humanidade. [Estudar a “ALMA BRASILEIRA” requer o] caminho mais adequado: o estudo dos mitos, dialogando com um mestre da interpretação do mito que é C. G. Jung com sua teoria dos arquétipos coletivos. Vejamos o que nos diz um dos mais reconhecidos estudiosos dos mitos, Mircea Eliade (Aspects des mythes, Paris: Gallimard, 1963). O mito cumpre três funções fundamentais: conta, explica e revela. O mito conta: não usa a lógica dos conceitos, mas a das imagens. Conta aquilo que nos afeta profundamente e representa grande significado para a vida.

O mito explica: aquilo que nos é significativo traz também respostas a indagações que estão sempre presentes em nossa agenda existencial: qual o nosso lugar no conjunto dos seres? Qual o sentido da vida e da dor e da morte? Para onde finalmente vamos? O mito revela: ele traz à tona dimensões profundas do ser humano e do mistério do universo. Nosso olhar nunca é só objetivo e analítico; ele é também subjetivo e simbólico: capta as ressonâncias que as coisas causam em nós. O Sol não é apenas uma estrela do céu, mas ele habita em nós como arquétipo de nossa centralidade. Permito-me citar James Hollis, conhecido psicanalista norte-americano, atento aos mitos modernos:

“O mito nos leva até o fundo das reservas psíquicas da humanidade. Sejam quais forem nossas raízes culturais e religiosas, ou nossa psicologia pessoal, a familiaridade com os mitos proporciona um elo vital de ligação com o sentido. Muitas vezes sua ausência está por trás das neuroses individuais e coletivas de nosso tempo. Em resumo, ao estudar os mitos, estamos em busca daquilo que nos vincula mais profundamente à nossa própria natureza e ao nosso lugar no cosmo”. (Rastreando os deuses: o lugar do mito na vida moderna, São Paulo: Paulus, 1998, p.10)

Essa escolha, [do estudo da “ALMA BRASILEIRA} a meu ver, é das mais acertadas, pois o diálogo com esse mestre das profundezas da alma humana nos traz contribuições inestimáveis que dificilmente encontramos fora dele e de sua escola. Isso se deve especialmente à compreensão que Jung tinha da própria psicologia. Para ele a psicologia não possuía fronteiras entre cosmos e vida, entre biologia e espírito, entre corpo e mente, entre consciente e inconsciente, entre individual e coletivo. A psicologia tinha que ver com a vida em sua totalidade, em sua dimensão racional e irracional, simbólica e virtual, em seus aspectos sombrios e numinosos. Por isso tudo lhe interessavam os fenômenos exotéricos, a alquimia, a parapsicologia, o espiritismo, a filosofia, a teologia, a mística, ocidental e oriental, os povos originários e as teorias científicas mais avançadas. Sabia articular esses saberes descobrindo conexões ocultas que revelavam dimensões surpreendentes da realidade. De tudo sabia tirar lições, hipóteses e enxergar possíveis janelas sobre a realidade. Uma visão holística e sistêmica é aproveitada pelos autores desta coleção. Com isso não ficam reféns de visões fragmentadas que perdem do horizonte o todo. Coube a Jung o mérito de valorizar e decifrar a mensagem escondida nos mitos. Eles constituem a linguagem do inconsciente coletivo. Este possui sua relativa autonomia. O órgão que capta o significado dos mitos, dos símbolos e dos grandes sonhos é a razão sensível ou da razão cordial. Esta foi na modernidade colocada sob suspeita, pois poderia obscurecer a objetividade do pensamento. Jung sempre foi crítico do uso exacerbado da razão ocidental, instrumental-analítica, pois fechava muitas janelas da alma. Para Jung o grande problema atual é de natureza psicológica. Não da psicologia entendida como disciplina ou apenas uma dimensão da psiquê. Mas psicologia no sentido abrangente que lhe dava Jung, como referimos acima, como a totalidade da vida e do universo enquanto percebidos e articulados com o ser humano, seja pelo consciente, seja pelo inconsciente pessoal e coletivo. É nesse sentido que escreve:

“É minha convicção mais profunda que, a partir de agora, até a um futuro indeterminado, o verdadeiro problema é de ordem psicológica. A alma é o pai e a mãe de todas as dificuldades não resolvidas que lançamos na direção do céu”. (Cartas III, 243)

Leonardo Boff

(Teólogo reconhecido internacionalmente; Membro Honorário da International Association for Analytical Psychology – IAAP; principal responsável pela tradução da obra de Carl Gustav Jung no Brasil

(Prefácio do livro “Mitos, Folias e Vivências”, editado pela Bapera Editora & Mauad X)

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