Cadernos Junguianos nº 13 – 2017

Sumário
Editorial 5

Nossa capa 7

Artigos
A escuridão na imaginação científica contemporânea e suas implicações 9
Joseph Cambray

A dor no mito de Prometeu e Io
Cristina dos Santos Ferreira Tose 30

Refl exões sobre corpo-Self
Paulo José Baeta Pereira 49

Participation mystique nas performances dos festivais
contemporâneos de música eletrônica
Ana Paula Amaral Corrêa 56

Twitter, o vaso alquímico de 140 caracteres. Ensaio de psicologia
analítica e literatura
Acaci de Alcantara / Roque Tadeu Gui / Rubens Bragarnich 74

Contribuições de Carl Gustav Jung à compreensão e ao estudo
do protestantismo
Sílvio Lopes Peres 93

O pai terrível: uma luta interior
Sheila Teresa Carmona Simões / Gelson Luís Roberto 104

Corpo e psique: sua potência expressiva na individuação
Elisabeth Zimmermann 119

Emoções: um diálogo entre a ciência e o simbolismo
astrológico
Tereza Kawall 129

Histórias e memória
Meu encontro com Nise da Silveira e C. G. Jung
Gladys Schincariol 144

Resenha
Sob a pele
Gustavo Wickert 152

Orientações aos autores para publicação 155

Sinopses

A escuridão na imaginação científica contemporânea e suas implicações   Joseph Cambray

Sinopse: Recentemente têm sido crescentes o interesse e as informações na imprensa popular e na literatura científica sobre assuntos referentes à energia escura e à matéria escura. A natureza misteriosa, desconhecida, dessas entidades capturou a imaginação cultural. No entanto, muito pouca reflexão psicológica foi feita sobre a atenção dada a esses fenômenos. Uma breve visão geral sobre o fascínio (e temor) humano com relação ao escuro é apresentada aqui como pano de fundo do interesse atual dado às dimensões da escuridão na cosmologia moderna. A partir da hipótese da matéria escura nos anos 1930, baseada nas observações astronômicas das galáxias, esse fascínio só cresceu. Mais recentemente, a ainda mais misteriosa energia escura, uma força repulsiva oposta à gravidade que cria regiões de vazio, chegou ao centro dos estudos cosmológicos. Supõe-se que essa energia escura é um dos elementos de conformação na evolução da estrutura em grande escala do universo. O significado psicológico do imaginário científico gerado por esses estudos aumenta quando é feita a comparação com os padrões neuronais em cérebros de mamíferos. Além disso, o modelo de universo que surge desses estudos tem paralelos surpreendentes com certas escolas do budismo, especialmente aquelas que valorizam o nada como base para a realidade. A psicologia junguiana é apresentada como bem posicionada para avaliar a mudança de paradigma representada pela confluência dessas visões.

A dor no mito de Prometeu e Io  – Cristina dos Santos Ferreira Tose

Sinopse: O presente estudo enfoca o profundo sofrimento vinculado à doença fibromialgia, e foi elaborado como análise simbólica da qualidade de vida de mulheres que relatam uma dor difusa, intensa e constante, dia após dia. Uma dor estranha que anda pelo corpo todo, deprime, exclui do convívio social e, de uma forma instigante, não responde aos tratamentos convencionais. Para interpretar essa tragédia dolorosa, usaremos o método da amplificação mítica e alquímica da psicologia analítica a partir do pensamento da Antiguidade, através da poesia de Hesíodo e do mito Prometeu acorrentado,de Ésquilo, propondo ser essa experiência torturante a manifestação arquetípica de um sofrimento universal.

Reflexões sobre corpo-Self   Paulo José Baeta Pereira

Sinopse:Mesmo como adultos, a nossa relação com o corpo nos conecta diretamente à raiz materna desenvolvida em nós na primeira fase da vida. Nascemos como corpo, e a unidade biopsíquica é acompanhada da presença da mãe. É nessa fase que se desenvolve na criança a primeira manifestação biológica do Self, que Neumann define como corpo-Self ou Self corporal. Baseado em seu livro A criança (1995), este artigo apresenta alguns modelos de observação e desenvolvimento corporal surgidos a partir de meus trabalhos em dança e com análise junguiana, refletindo a experiência do corpo como vivência e presença do Self.

Participation mystique nas performances dos festivais contemporâneos de música eletrônica  – Ana Paula Amaral Corrêa

Sinopse:Com o crescimento do público das festas/festivais de música eletrônica no país mostra-se necessário o conhecimento dos elementos constitutivos desses eventos para compreensão de seus reflexos no comportamento dos participantes. Isso possibilita, por exemplo, o entendimento de questões atinentes ao uso de drogas alucinógenas ou estimulantes em tais ambientes, o que é crucial para o adequado atendimento terapêutico de clientes que frequentam tais eventos. O presente estudo, que traz uma abordagem multidisciplinar do tema, dá ênfase às principais formas de comunicação existentes nessas festas, bem como à relação do público com o DJ nesses eventos, que em muitos aspectos se assemelham aos rituais xamanísticos. Quanto às formas de interação, merecem destaque a dança e a música – onde é possível identificar a ocorrência do conceito de participation mystique, como foitratado pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung.  É possível concluir que as diversas formas de expressão características dessas festas possibilitam a ocorrência de identificações experimentais e delas decorre um processo de ativação mais profundo do inconsciente dos participantes.

Twitter, o vaso alquímico de 140 caracteres. Ensaio de psicologia analítica e literatura – Acaci de Alcantara / Roque Tadeu Gui / Rubens Bragarnich

Sinopse:Argumenta-se que o Twitter, microblogue com a limitação textual de 140 caracteres, possibilita a criação de imagens poéticas condensadas, a exemplo do que ocorre com as imagens oníricas. Na alquimia, a compressão do vas sobre a prima materia permite que a operação se processe. Analogamente, as palavras, contidas no Twitter poético, escolhidas e esculpidas com cuidado e precisão, passam por um processo de purificação, para expressar a ideia que produzirá ressonância de afeto e significado na alma do leitor. Apresenta-se experiência de criação de tweets poéticos, realizada por ocasião do VII Congresso Latino-Americano de Psicologia Analítica, na cidade de Buenos Aires, em 2015. Os autores elaboraram e apresentaram tweets em sessão de tertúlia, solicitando aos participantes resposta literária no mesmo formato digital. Observou-se a ressonância poética aos embriões literários depositados pelos autores na plataforma, com a emergência de novas imagens. Pretende-se imaginar, mais do que comprovar, que esse dispositivo cibernético pós-moderno pode ser visto como retorta-vaso-forno no qual as operações ativadas pela imaginatio se processam na busca da germinação de ideias poéticas.

Contribuições de Carl Gustav Jung à compreensão e ao estudo do protestantismo

 – Sílvio Lopes Peres

Sinopse: Nos quinhentos anos da Reforma Protestante (1517-2017), cabe-nos refletir sobre temas do protestantismo que fazem a interface com a psicologia analítica de Carl Gustav Jung. O protestantismo, enquanto sistema religioso, pode resgatar experiências com o arquétipo central da psique, distanciando-se de uma teologia intelectualista e desmitologizada, baseada em um Jesus meramente histórico. Martinho Lutero (1483-1546), que fixou nas portas da Igreja de Wittenberg, Alemanha, o conhecido documento “95 Teses”, em 31 de outubro de 1517, pode ser considerado um dos maiores protagonistas de um movimento que já se iniciara no século XI. Segundo Jung, o protestantismo é um campo religioso de discussão inteligente e de liberdade acerca da vida simbólica, portador de uma teologia que proporciona alívio e esperança, reduzindo os perigos de uma dissociação psíquica, graças à simbologia presente nos dogmas cristãos herdados do catolicismo

O pai terrível: uma luta interior – Sheila Teresa Carmona Simões / Gelson Luís Roberto

Sinopse:Este estudo analisa um fragmento do filme O buraco (Dante, 2009), que traz a história da família Thompson, cujo pai é alcoolista, violento e causador de agressões na mãe e nos filhos. O objetivo foi investigar a repercussão desse quadro familiar na formação do complexo paterno da personalidade do adolescente Dane, a partir da vivência traumática com o pai pessoal associada ao pai arquetípico. O método qualitativo de análise de imagem foi alicerçado pela revisão bibliográfica da psicologia analítica de C. G. Jung, o que favoreceu o entendimento do conceito de trauma associado ao complexo paterno e ao arquétipo paterno negativo. O enfrentamento do complexo traumático personificado na imagem do pai terrível promoveu a deflação da imagem do trauma e a superação do sofrimento, evitando a dissociação da psique.

Corpo e psique: sua potência expressiva na individuação – Elisabeth Zimmermann

Sinopse: Para Jung, o ser humano precisa ser compreendido à luz da história e de sua inserção social. A diferenciação da psique coletiva criou um estado de separação entre as duas naturezas: a física e a psíquica. Como fazer para recriar a relação de unidade existente antes da ruptura que a consciência emergencial produziu? Para entrar em contato com o inconsciente é necessário objetivar seus conteúdos ou reconhecê-los no corpo, ou seja, validar a experiência do corpo como manifestação exterior da vida do espírito. É necessário fazer uso da visão imaginativa e da relação com o somático, processo em que as imagens compõem um todo complementar, como se fosse um modo de pensar mais antigo e, ao mesmo tempo, um pensamento novo, integrativo, não analítico, e que não é o pensamento das teorias, dos conceitos e das interpretações. Essa maneira de conceber o trabalho psíquico gera um campo de intensidade, uma energia criativa que impulsiona o indivíduo em sua jornada de individuação.

Emoções: um diálogo entre a ciência e o simbolismo astrológico – Tereza Kawall

Sinopse:A proposta do presente trabalho é investigar a emoção humana tanto do ponto de vista do simbolismo astrológico, quanto da perspectiva da neurociência, mais especificamente em relação ao funcionamento do cérebro límbico. É importante ressaltar que, embora o conhecimento da astrologia não esteja fundamentado nos moldes científicos tradicionais, sabemos que desde sua origem ela foi transdisciplinar. Ao longo dos séculos e em diferentes culturas, ela dialogou com outras ciências ou campos do conhecimento, como a botânica, a astronomia, a medicina e a alquimia, que lançou as bases da química moderna. Para esse desafio, vamos analisar o símbolo da Lua astrológica, uma vez que ele nos remete ao arquétipo do feminino, da maternidade e da infância. Dessa forma, a Lua está relacionada à construção de nossa memória emocional, que é a matéria-prima, o tecido constitutivo dos complexos, profundamente compreendidos por Carl Gustav Jung. Desta feita, tentaremos estabelecer uma analogia entre esses princípios astrológicos e o sistema límbico humano, que em termos evolutivos é considerado nosso cérebro antigo. Seria possível uma interface entre esses dois saberes, ou seja, entre a tradição milenar e a ciência contemporânea?

Histórias e memória

Meu encontro com Nise da Silveira e C. G. Jung  – Gladys Schincariol

Resenha

Sob a pele – Gustavo Wickert

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