Cadernos Junguianos nº 10 – 2014

Sumário
Editorial   5

Artigos

Verruga no nariz: uma contribuição à desconstrução da malignidade
Regina Sampaio  7

Ao encontro do corpo criativo: novos caminhos da expressão simbólica
Walter Boechat  21

Re-vendo a presença da psicologia na escola através do cultivo da alma  
Rosane Barbosa Marendino 33

Psicopatologia da Síndrome de Dependência de Drogas e Tratamento
Daniela Benzecry 51

O rio secreto que purifica os homens da morte: uma leitura junguiana do conto “O Imortal”, de Jorge Luis Borges  
Helena Maria de Andrade Capelini 63

Uma reflexão sobre o filme La teta asustada  
Heloisa Mara Luchesi Módolo 83

Afrodite Porneia no Temp(|)o Digital: a subjetivação feminina da pornografia  
Roque Tadeu Gui 101

Sobrevoando a cabeça da Medusa: uma visão junguiana sobre a transgeracionalidade dos comportamentos borderline
Marcelo Niel  121

Esboço para uma alquimia do açúcar  
Gustavo Barcellos 131

Resenhas

Valente
Denise Maia  142

Fausto e a tragédia arquetípica da perda da alma
Braulio Eloi de Almeida Porto  146

Orientações aos autores para publicação  149

Verruga no nariz: uma contribuição à desconstrução da malignidade – Regina Sampaio

Sinopse: Bruxa, demoníaco, misoginia – uma contribuição à desconstrução da malignidade, é um estudo que procura ampliações na compreensão do feminino repudiado, buscando na História dados que detectam e denunciam a misoginia; e que na atualidade se refletem nos conceitos teóricos e modos de pensar e tratar em homens e mulheres.

Ao encontro do corpo criativo: novos caminhos da expressão simbólica’ – Walter Boechat

Sinopse: O presente artigo aborda a crescente importância do corpo em psicoterapia e nos estudos de comportamento e identidade. O autor tem como objeto de seu trabalho não a questão psicossomática e o processo de somatização em si, mas os problemas da totalidade corpo-mente para a compreensão do homem no novo paradigma. O autor lança mão de teorias da neurociência atual, apoiando-se principalmente em Damásio e Edelman e também nas teorias de linguagem de Lakoff e Johnson, procurando demonstrar que a dicotomia cartesiana res cogita – res extensa está superada dentro de uma perspectiva da pós-modernidade. Incluídos na questão corporal, os gestos e os movimentos são abordados como elementos importantes dentro de uma psicoterapia. A obra de C. G. Jung é citada em momentos de tomada de perspectiva de totalidade corpo-mente. O corpo expressivo aparece de forma bem definida no ensaio de Jung, “A Função Transcendente”, que é abordado com especial atenção.

Re-vendo a presença da psicologia na escola através do cultivo da alma
– Rosane Barbosa Marendino

Sinopse: O presente artigo propõe uma re-visão das relações e das práticas do psicólogo escolar com/na educação, partindo de subsídios oferecidos pela psicologia analítica de C. G. Jung e a psicologia arquetípica de James Hillman. Compreende- se que em lugar de buscar causas e explicações psicopatológicas, fragmentadas e reducionistas – típicas do modelo racionalista no qual a psicologia científica surge -, o psicólogo que trabalha no ambiente escolar possa se dedicar a uma nova visão de homem na sua existência cotidiana, no seu tempo e dentro de seu contexto cultural, abrindo dimensões diferentes que conduzam ao reencontro da alma com o logos.

Psicopatologia da Síndrome de Dependência de Drogas e tratamento – Daniela Benzecry

Sinopse: O drogadicto é alguém que evita as dores e desconfortos existenciais usando drogas. Ele reage de uma forma não adaptativa à realidade: em vez de aproximar-se ou afastar-se (forma adaptativa), ele altera o que sente tomando uma droga. Passando o bem-estar, a realidade volta a confrontá-Io e ele toma mais drogas, até ficar indiferente à realidade e insensível. Seus sentimentos serão determinados pela presença ou ausência das drogas e o seu pensamento será dominado por elas. O valor primeiro a nortear as escolhas do adicto será as drogas, elas serão o centro de sua vida e o ego voltar-se-á para elas. O resultado do processo de dependência é um progressivo isolamento e a não integração do adicto à sociedade e da experiência da droga à consciência. O tratamento deverá possibilitar a integração de aspectos vividos na drogadição à consciência e do indivíduo à sociedade. Na recuperação, o encontro de valores transcendentes possibilitará a expansão da consciência enquanto o ego vai, imaginariamente, no sentido do Self. Portanto, o tratamento deve favorecer o processo de individuação.

O rio secreto que purifica os homens da morte: uma leitura junguiana do conto “0 imortal”, de Jorge Luis Borges– Helena Maria de Andrade Capelini

Sinopse: Neste texto, percorre-se a primeira parte do conto “O imortal”, de Jorge Luis Borges, articulando-se a narrativa com uma atitude junguiana. Parte-se do pressuposto que a literatura borgiana, e especialmente a peça literária em foco, fundamenta-se num universo simbólico e imaginário que extrapola em muito a dimensão da individualidade do autor ou de qualquer humano em particular. Isso a torna especial na configuração não só cultural como também arquetípica da humanidade. A opção foi remeter-se à literatura junguiana como instrumento de identificação de traços de um processo psíquico em direção à individuação. Os conceitos, no entanto, não estão desenhados com traços acadêmicos propriamente ditos. Eles são expostos e articulados, em todo o trajeto textual, como vivamente fundados na experiência humana de vida e morte como par nuclear da existência.

Uma reflexão sobre o filme La teta asustada
(Uma jornada do medo para a vida)
– Heloisa Mara Luchesi Módolo

Sinopse: A partir do filme peruano La teta asustada, que retrata as consequências traumáticas dos abusos sexuais ocorridos durante o terrorismo do Sendero Luminoso, analisamos o processo de individuação da personagem Fausta. No mito andino, as mulheres violentadas transmitiam, através do leite materno, as lembranças traumáticas para seus bebês, que ficavam igualmente marcados pela tragédia.

Afrodite Porneia no Temp(l)o Digital: a subjetivação feminina da pornografia – Roque Gui

Sinopse: Pornografia, um negócio que movimenta 12 bilhões de dólares por ano. O imaginário pornográfico veiculado pelos meios de comunicação, sobretudo pela internet, exerce efeitos sobre a subjetividade de homens e mulheres. Trata-se de mais um dos sintomas da corrosão dos valores morais, como desejam algumas orientações religiosas ou mesmo leigas, produto da ativação de uma sombra coletiva que se expressa por meio da maquinaria e processos do tempo digital? Ou expressa certos dominantes arquetípicos que se atualizam nos acontecimentos de um mundo em efervescência tecnológica, fazendo emergir novos valores, atitudes, hábitos e comportamentos, enfim, novas formas de subjetivação? Em que altar reza a pornografia? Como afeta o processo de individuação de homens e mulheres contemporâneos? O tema surge na sala de análise, no depoimento de homens, sobrecarregados de culpa e vergonha, mas também na estranheza e no incômodo de muitas mulheres que se perguntam por que eles fazem isso! A pornografia tem sido considerada um problema masculino, evocando categorias ligadas à patologia, à perversão e aos desvios de caráter, quando não ao crime. Mas o que pensam as mulheres?

Sobrevoando a cabeça da Medusa: uma visão junguiana sobre a transgeracionalidade dos comportamentos borderline – Marcelo Niel

Sinopse: Através da ilustração de um caso de análise de uma paciente portadora de Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), o autor propõe uma visão junguiana do conceito da transmissão da vida psíquica entre gerações de René Kaés, tendo como base simbólica o mito da Medusa e a poesia homônima de Sylvia Plath.

Esboço para uma alquimia do açúcar– Gustavo Barcellos*

Sinopse: O trabalho compõe uma análise do temperamento doce e da metáfora psicológica do açúcar com base na sabedoria alquímica medieval das substâncias essenciais que compõem os fenômenos da natureza aparente e inaparente. Tal como o sal, o mercúrio e o enxofre, proponho um exame do açúcar pensado como uma substância alquímica que integraria o tetrassoma paracélsico, trazendo-o para um paradigma mais moderno. Tal exame, empreendido com o caráter de uma “imaginação ativa” e na chave da metáfora, poderá ajudar na clínica analítica dos humores ao nos fazer entender e captar de modo mais profundo e abrangente as experiências psicológicas e emocionais que têm a ver com docilidade e amargura na vida.